ARTIGO

A feira

O cheiro da pamonha, do café sendo moído, o abacaxi, tudo forma um conjunto de deliciosas sensações


Adoro passear pela feira da Vila Imperial nas manhãs de sábado, programa que tem papel de destaque na geografia de meu finde. Para mim, é ali, entre o colorido encantador dos legumes, verduras e frutas, que se inicia meu fim de semana.A beleza visual das viçosas frutas, os legumes de intensos verdes, vermelhos, amarelos, as verduras que parecem estar à espera da mão que as farfalhe para soltar as gotas d'água espargidas pelo feirante. Tudo ali, me sensibiliza. O apuro e o capricho com que os feirantes expõem as eloquentes riquezas rurais do entorno da cidade, se revelam mais evidentes pelos odores que promovem um passeio pela minha memória afetiva: o cheiro da pamonha, do café sendo moído, o abacaxi, o salsão, tudo forma um conjunto de deliciosas sensações.

Mesmo os dias de tamanha insensatez, como esses de isolamento social, têm seus instantes de delicadeza e graça e um passeio desses nos faz esquecer que habitamos um país que é o puerpério do hospício e enfrentamos um período de temor e privações para o qual não fomos preparados. É lugar de poucos jovens,que até há pouco tempo, antes da quarentena, procuravam um pastel à saída das baladas, se preparando para tomar o rumo de casa. A feira é um ninho de gente como eu, de idade mais avançada, portanto, do grupo de risco, todos com seus carrinhos e sacolas, que deixam no meio da passagem quando vão escolher suas compras, nem aí se estão obstruindo o caminho. Nem percebem, na verdade. E a gente desvia, com prazer, porque, principalmente nas manhãs de sol, o humor da gente perdoa tudo e acaricia a alma de forma enfática. É uma pena que estejamos todos com nossas máscaras no rosto, protegendo do vírus e escondendo o sorriso de um "bom dia" com a simplicidade de Cristo. Ou melhor, transferindo o sorriso para os olhos.Com a máscara, muitas pessoas que não nos são próximas, ficam incógnitas.

E passamos a adotar hábitos tóxicos,aquele comportamento novaiorquino no inverno, como disse o Marcelo Rubens Paiva, que esconde as demonstrações de afeto por um simples olhar, de pessoas que não se olham, não se cumprimentam e não permitem uma aproximação. Mesmo assim, a feira é um lugar que aquece o coração. Se soubéssemos de antemão o que a vida nos aguardava, talvez não tivéssemos encarado muitas manhãs como essas.Mas se o mundo ficar pesado e for dominado por essa teoria conspiratória, eu vou pedir emprestada a palavra poesia como diz a letra do Samba da Utopia, de Jonathan Silva.

Waldner Lui, Membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec); Rio Preto.