ARTIGO

A glória do mundo

Por esses caminhos tortuosos, muita gente passa a vida sem se dar conta de que não somos quase nada


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Até o advento do Concílio Vaticano II (1962-1965), as cerimônias solenes de coroação de um novo Papa da Igreja Católica Romana envolviam um ritual muito complexo, que durava horas. A certa altura, um monge descalço se apresentava por três vezes diante do Papa para queimar, a seus pés, uma mecha de estopa, ao mesmo tempo em que proferia as seguintes palavras, em latim: "Sancte Pater, sic transit gloria mundi" (Santo Padre, assim passa a glória do mundo).

Isso era repetido para que o novo Pontífice jamais se esquecesse de que era um homem e mortal, e por mais alto que fosse o cargo ocupado, ele não deveria se iludir com as glórias e vaidades do mundo, que são transitórias e passageiras. Consta que esse costume tinha origem em rituais do antigo Império Romano em que, nos grandes desfiles militares, o mais alto general comandante das tropas tinha sempre a seu lado um servo a lhe repetir: "Tu és apenas um homem".

A vaidade, como se sabe, é um dos pecados que mais facilmente capturam a alma humana. Todos nós conhecemos pessoas que, por pouca coisa, são extremamente vaidosas: umas porque ocupam um cargo de prestígio na sociedade; outras porque são belas; algumas porque são muito ricas; enfim, não é preciso muito para alimentar a vaidade das pessoas vazias. As coisas se agravam quando o excesso de vaidade começa a cegar essas pessoas, impedindo-as de ver o mundo como ele realmente é.

Por esses caminhos tortuosos, muita gente passa a vida inteira sem se dar conta de que não somos quase nada neste mundo, até que a vida nos surpreenda com golpes tão violentos e inesperados, que nos fazem perceber o quão pequenos somos diante da grandeza do mundo. E que golpes são esses? Uma doença maligna, um acidente grave, a falência, ou a morte inesperada, que bruscamente nos chamam para a crua realidade da vida. Daí, a pessoa vaidosa passa a refletir sobre as razões que motivavam o seu comportamento anterior: meu Deus, por que não vi isso antes? Por que eu agia assim? Se eu pudesse, voltaria no tempo e faria tudo diferente, mas, agora é tarde! Tanto orgulho e vaidade: o que isso me trouxe de alegria, de felicidade? Nada! E para os outros, o que de positivo deixei? Nada, também!

Vivemos um tempo terrível da pandemia do coronavírus, que provocará muitas mudanças. Como reflete Nizan Guanaes, em recente artigo (Folha de S. Paulo 5/5/20): "No nível pessoal, as repactuações serão imensas. Eu vejo meu armário e penso: por que comprei tudo isso? De que eu de fato preciso? Não era eu que estava consumindo aquelas coisas, mas aquelas coisas que estavam me consumindo". São reflexões amargas que muitas pessoas fazem somente quando já não há mais tempo para nada. A vida passa num instante e quase não percebemos, até a chegada da hora fatal. Vivamos, então, na simplicidade, com alegria no coração e de bem com a vida!

João Francisco Neto, Advogado, doutor em Direito Econômico e Financeiro pela Universidade (USP); Monte Aprazível.