ARTIGO

Cultura em tempo de pandemia

Em Rio Preto não foi diferente, nenhuma ação ousada, urgente surgiu desse governo prostrado


João Paulo Rillo
João Paulo Rillo - Guilherme Baffi 24/3/2018

A cultura e a arte têm séculos de acúmulo e resistência em seu favor, sobreviveu a todas as tragédias que acometeram a humanidade. A arte é transformadora, muda pensamentos e pessoas, gera consciência crítica, incomoda os hipócritas, é a matéria prima fina da rebeldia. Por isso, é fortemente atacada pelos conservadores, medíocres e reacionários. Uma parcela histérica da sociedade declarou guerra à cultura, à ciência, à arte e aos artistas. O barulho é muito maior do que o tamanho real dos opositores. Mas o medo e a preocupação com necessidades básicas de sobrevivência causam um grande silêncio entre uma maioria sensata e humanizada.

Poucos vão levantar a voz para defender a cultura e os artistas em um país em que caixões são empilhados e seres humanos morrem em suas casas por falta de leitos em UTI. Isso não significa, no entanto, que as pessoas não compreendam que arte e cultura são valores civilizatórios fundamentais da humanidade.

A trágica e angustiante pandemia colocou o mundo de joelhos e jogou um canhão de luz sobre a realidade, escancarou os conflitos e revelou a mediocridade de representantes do povo. Os oportunistas que, em período eleitoral, fingem ter respeito e apreço por quem cria e produz arte e cultura aproveitam o barulho que a turba fascista oferece e colocam a cultura em uma gaveta fúnebre.

Em Rio Preto não foi diferente, nenhuma ação ousada, humana e urgente surgiu desse governo prostrado, paralisado em interesses menores e ocultos.

Desde o início foi um festival de incertezas e abuso do gerúndio nas narrativas: "estamos vendo, estamos providenciando, estamos tentando".

A pedido dos artistas, o governo municipal montou um grupo virtual, que resultou na formulação de um edital emergencial que garantiria trabalho digno de pesquisa e produção de conteúdo para os artistas da cidade.

Essa ação não geraria uma despesa extra, seria uma adequação financeira das economias que o governo teria com o cancelamento de vários eventos públicos, entre eles o Festival Internacional de Teatro.

O governo organizou a farsa em dois atos: no primeiro, deu autonomia de diálogo ao secretário de Cultura (em tese, a voz oficial do governo no fórum virtual); no segundo ato, o prefeito recebeu os artistas e colocou os secretários da Fazenda e da Administração para dizerem 'não' ao que o próprio secretário de Cultura formulou juntamente com os artistas. Ou seja, o secretário e os membros da Secretaria de Cultura não passam de peças ornamentais de um governo antipovo e anticultura. Eles são também cúmplices e avalistas de um método desrespeitoso de tratar os artistas da cidade.

E a justificativa é a de sempre: "diminuiu a arrecadação, estamos em contenção de despesas".

Alguns números se fazem necessários para desmontar a tese farsesca apresentada pelos homens da municipalidade. Em 2019, o governo municipal torrou R$ 4,5 milhões em propaganda e atos oficiais. O governo Edinho torra por ano quase R$ 30 milhões com 229 apadrinhados e gratificações. O projeto emergencial de cultura defendido pelos artistas era inferior a R$ 900 mil.

Os números revelam o tamanho do apreço e respeito que o prefeito Edinho tem pelos artistas e pela cultura da cidade.

João Paulo Rillo, Ex-deputado estadual; Rio Preto.