SÉRGIO CIMERMAN

Seriedade de pesquisador

Perdemos nossos gênios para outros países, culturalmente mais desenvolvidos


Sérgio Cimerman, infectologista
Sérgio Cimerman, infectologista - Divulgação

Desde a criação da Universidade de São Paulo (USP), na década de 1930, e com a criação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em 1951, surgiu também uma luta por recursos capazes de garantir a produção de trabalhos com nível de excelência, sobretudo na área médica. Os baixos salários e o financiamento escasso nos levam a perder indivíduos brilhantes, que poderiam conduzir estudos de ponta no País. Perdemos nossos gênios para outros países, culturalmente mais desenvolvidos. Essas nações os retribuem, financeiramente, de modo adequado e valorizam o trabalho acadêmico.

A pesquisa médica no mundo é importantíssima. Se levarmos em conta apenas os vencedores de Prêmios Nobel, perceberemos que uma imensa maioria será de profissionais da área da saúde, que acabam sendo empregados pelas grandes indústrias farmacêuticas.

Trabalhar e pesquisar para estas empresas significa ter melhores salários, estrutura e visibilidade para a pesquisa médica. Entre nós: seria um grande desafio, e certamente nos traria muitos benefícios, uma parceria público-privada mais efetiva em termos de investimentos, até porque 60% do conhecimento científico do Brasil vêm de nossas universidades públicas. Não obstante os seguidos cortes orçamentários, notamos um crescimento sistemático da pesquisa médica no Brasil, sendo esse um cenário promissor, visto ocuparmos a 13ª posição no ranking de trabalhos científicos publicados pela Web of Science, ferramenta esta que faz a análise de citações, referências bibliográficas e o índice H, que mensura a qualidade das publicações.

Escrevo esta demorada introdução para pontuar que, neste momento em que enfrentamos a covid-19 nos hospitais e até mesmo nas ruas, uma imensidão de trabalhos científicos é desenvolvida e publicada, embasada por projetos desenhados por cientistas e pesquisadores da maior seriedade em nosso País e no mundo. No Brasil, são estudos clínicos aprovados pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) e pelas comissões de ética em pesquisa dos hospitais. São estudos realizados com o consentimento dos pacientes ou seus familiares. Inúmeros ensaios clínicos têm sido publicados em revistas de prestigio e tantos outros em locais duvidosos e com resultados não confiáveis acerca da hidroxicloroquina, por exemplo.

Recentemente, no Brasil, pesquisadores foram acusados de serem negligentes e de transformarem pacientes em "cobaias", como foi verificado em redes sociais e grupos de WhatsApp. Quem milita na área da pesquisa sabe muito bem compreender que tal afirmação é despropositada. Isso aconteceu com uma pesquisa, inclusive, noticiada pela repórter Giovana Girardi no dia 24 de abril aqui no Estado. A pesquisa procurava entender a relação entre a morte de pacientes e a quantidade de medicação ministrada pelos médicos.

Posso dizer que o estudo foi realizado por um consórcio de pesquisadores e instituições sérias do Brasil. O grupo se chama Cloro-Covid-19 e segue todos os ritos de um ensaio clínico adequado e bem conduzido, merecendo publicação em uma das revistas médicas de maior prestigio entre nós, o JAMA (Journal American Medical Association) em abril de 2020.

As pessoas devem entender que resultados adversos podem existir em qualquer estudo clínico que envolva seres humanos e, por isso, o estudo não teve seu seguimento - ele avaliaria 400 pacientes, sendo analisados antes do seu término por um comitê de segurança apenas 81 pacientes em todas as suas variáveis. Este e outros tantos estudos que estão em curso no Brasil com o mesmo medicamento poderão em algum momento ter a necessidade de suspensão. Caso isso venha a ocorrer, a seriedade dos pesquisadores recomenda comunicação imediata à Conep. Será preciso informar a razão da interrupção e os devidos motivos.

Isso tudo dialoga com o que chamamos de boas práticas clínicas, normativas usadas em pesquisa clínica que objetivam garantir evidencias quanto à eficácia e segurança de uma medicação.

Temos de confiar e acreditar nas pesquisas realizadas em território nacional, pois a ciência brasileira tem muito a produzir. Esta explosão do conhecimento que a covid-19 traz é importantíssima e, assim, não pode haver nenhuma ameaça aos nossos cientistas. São eles que travam uma luta ferrenha e incansável contra a covid-19. Parabéns aos nossos pesquisadores!!!!

Sérgio Cimerman, é ex-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia