ARTIGO

Outro maio, 13

Perto de 5 milhões de de negros escravizados aportaram ao Brasil; três séculos de puro horror


Maio, 13, aniversário da Lei Áurea, costuma ter comemoração contida. Afinal, somos um povo mestiço, razão talvez do preconceito sócio-econômico e racial, às vezes mascarado, mas real. Ficam assim explicadas as homenagens a Zumbi dos Palmares, no 20 de Novembro. A História oficial, laudatória, passa ao largo das verdadeiras razões que levaram a Princesa Isabel a assinar a lei redentora, cuja repercussão apressou o fim da nossa Monarquia. Eram os ventos republicanos somados ao abolicionismo de Rebouças, José do Patrocínio, Castro Alves, Joaquim Nabuco e outros mais. Um deles primevo e controverso, o padre Antonio Vieira. Jesuíta, Vieira, nascido em Lisboa em 1608 e falecido em Salvador (BA) em 1697, disse que "o Brasil tem seu corpo na América e sua alma na Africa", referência óbvia à presença dos negros na formação da Nação brasileira e a sugerir a insurgência contra o jugo negreiro.

Controvérsia! Embora nascido em Portugal e lá retornando em várias idas, Padre Vieira viveu longo tempo no Brasil, onde se revelou, além de reconhecido pregador, inflamado defensor da não escravidão do índio e, ao contrário, entendendo natural e até obrigatória a escravidão do negro. Para Vieira, esses "etíopes", nascidos bárbaros nas vastidões africanas, somente alcançariam a graça eterna se submetidos ao flagelo da privação total da liberdade e, ademais, purgando seus pecados congênitos nos infernos dos eitos e da labuta sem descanso nos moinhos de engenho. Outra obviedade sob as nuvens do artifício dialético brandido pelo hábil religioso: a escravidão no Brasil, baseada no primitivo modelo capitalista do ciclo da cana-de-açúcar sacramentava-se sob licenças cristãs. E, em tão oportunos desígnios da Fé, dito modelo cevou-se na baixa produtividade, contudo, compensada pela disponibilidade de terras em dimensão continental e pelo pouco valor relativo de um escravo como insumo de produção. Padre Vieira, homem de vasta cultura, militante a favor dos judeus e ferrenho adversário da Inquisição é detentor de ilustre biografia e, mesmo condescendendo com a tolerância da Igreja de Roma quanto à escravidão negra, não deve ficar com a pecha de um escravocrata empedernido, visto todo o contexto histórico de uma infame prática.

A escravização do negro no modelo introduzido no Brasil tem sua nascente e inspiração em 1444, quando do primeiro leilão de africanos escravos, em Portugal. Em 1535, com o funcionamento dos engenhos de açúcar em Pernambuco, noticia-se a chegada dos primeiros escravos ao Brasil, quando o tráfico negreiro já adquirira estrutura empresarial, identificando supridores na África, intermediários logísticos e financiadores na Europa e clientes nas Américas. Dentre esses clientes, a oligarquia rural brasileira com seus mais de 300 engenhos operando "full time" enquanto floresceu o ciclo da cana e, depois, as "plantations" que lhes sucederam.

O transnacional negócio do tráfico negreiro permaneceu intenso, ativo e suportando a escravidão negra até a Revolução Industrial e seus impactos nas relações entre os Impérios e suas colônias. Registros confiáveis indicam que dos mais de 12 milhões de negros escravizados que atravessaram o Atlântico, perto de 5 milhões desses aportaram ao Brasil e aqui protagonizaram uma tragédia que durou mais de três séculos de puro horror. Tanto horror que beira ao inacreditável possa a Humanidade permitir-se à tamanha barbárie, infelizmente a repercutir na desigualdade que ainda atinge grande parte da nosso povo negro.

Helio Silva, Advogado; Rio Preto.