ARTIGO

Aos profissionais essenciais

É provável que o Brasil assuma o 3º lugar neste ranking macabro, uma vez que a testagem é morosa


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Há um mês, no dia 12/4, mais precisamente, em entrevista para um programa de televisão, o então Ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, reforçou pedido à população que mantivessem o isolamento social para conter o avanço do novo coronavírus. Afirmou, também, que o pico da pandemia ainda estaria por vir, e que os meses de maio e junho seriam "duros".

Obviamente, o ex-ministro tinha certeza de que não permaneceria no cargo, e teria aproveitado a entrevista para alertar a população que o presidente estaria tratando a pandemia, unicamente, pela perspectiva econômica (ou política), desconsiderando e desqualificando os protocolos exigidos naquelas situações que colocam em risco a saúde pública do país.

A entrevista repercutiu como era esperado: o presidente e aqueles que defendem a filosofia "todo mundo morre um dia", criticaram a fala de Mandetta, julgando-a alarmista demais e, o que é pior, que aquele cenário por ele descrito, dito apocalíptico, não se confirmaria. Aqueles que se posicionaram a favor da ciência e dos modelos matemáticos, reafirmaram e continuam defendendo a necessidade da manutenção e/ou ampliação do isolamento social.

No mesmo 12/4, o Brasil registrou um total de 1.223 mortos e de 22.169 casos confirmados de infectados. No último dia 14/5, 32 dias depois, o Ministério da Saúde divulgou que o número de mortos chegou a 13.149 (crescimento de 1.075%) e a 188.974 pessoas infectadas (853% de novos casos). Vale lembrar que, não fossem as subnotificações, os números seriam muito piores. E, é claro, o mês de maio não acabou e o de junho, sequer começou. Enfim, Mandetta, a ciência e os modelos matemáticos, estavam corretos.

O presidente e os defensores do fim do isolamento social devem estar comemorando o fato do Brasil ter assumido, no dia 13/5, a sexta posição no ranking dos países com maior número de infectados. Na frente dele estão, por enquanto, EUA, Rússia, Espanha, Reino Unido e Itália. Detalhe: em todos eles, seus respectivos governantes demoraram a adotar medidas de isolamento social.

Infelizmente, é provável que, em breve, o Brasil assuma o terceiro lugar neste ranking macabro, uma vez que a testagem por aqui é muito morosa, e que uma iludida parcela da população foi convencida de que se trata, apenas, de uma "gripezinha".

É igualmente triste a condição de risco que os profissionais da área da saúde têm sido expostos. Toda a vez que os índices de isolamento recuam, mais pessoas são infectadas. Estas pessoas contaminam outros indivíduos, familiares ou não, que, ao buscarem atendimento hospitalar, ampliam significativamente a chance de médicos(as), enfermeiros(as), técnicos(as) em enfermagem e demais trabalhadores da saúde, contraírem o vírus. Isto sem mencionar os tantos outros trabalhadores dos setores considerados essenciais que, diariamente, se arriscam.

Não há como citar estes profissionais e não pensar no temor que devem sentir todos os dias, antes de saírem para o trabalho, sem lembrar dos primeiros versos de uma das mais belas canções escritas por Chico Buarque: "amou daquela vez como se fosse a última, beijou sua mulher como se fosse a última, e cada filho seu como se fosse o único..."

A todos vocês, obrigado!

Ademar Pereira dos Reis Filho, Doutor pelo IGCE-Unesp de Rio Claro; diretor da Fatec de São José do Rio Preto.