ARTIGO

Era da leveza

A leveza tornou-se um paradigma transversal, impregnado de valor tecnológico e econômico


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A história da civilização é reflexo do desejo humano, por natureza, temos o desejo de controlar tudo, "caminhamos para uma humanidade modificada porque somos Techno sapiens consumidores de progresso que não suportam nenhuma restrição". Está em andamento, uma mudança sem precedentes. Passado o tempo das grandes revoluções políticas, vivemos a Era da Nanorrevolução, onde o leve torna-se a maior força de transformação do mundo, atingindo setores como: energia, automóvel, cirurgia, banco, aeronáutica, arquitetura, design, música, cinema etc. O domínio técnico do infinitamente pequeno (controle da matéria na escala molecular e atômica) é o que abre ao infinito o horizonte dos possíveis, o que era impossível torna-se real. O filósofo e sociólogo Gilles Lipovestsky, estudioso do comportamento contemporâneo, afirma que saímos de uma sociedade de peso (rígida/moralista/convencional) para uma sociedade da leveza (flexível/múltipla/"líquida"), da pesada moral do sacrifício para a moral das utopias light. Sonhamos com leveza, não mais com revoluções ou libertações. Essa leveza, afeta todos os campos da atividade humana: arte, tecnologia, literatura, máquinas, medicina, relações amorosas, corpo humano. Na era das nanotecnologias, tudo diminui de tamanho e de peso, "máximo desempenho com mínimo peso", os objetos e os corpos atendem as exigências de leveza. Enquanto tudo encolhe e se torna mais leve, ao mesmo tempo, surgem novos pesos e fardos a serem "carregados": a busca pela magreza, a realização de todos os desejos, a obrigação de ser feliz e viver novas experiências, a imposição de ser empático, interagir constantemente, ser visível (redes sociais) e brilhar. A leveza tem seu peso, o ideal de leveza vem acompanhado de normas exigentes com efeitos exaustivos e às vezes deprimentes: renunciar a uma vida despreocupada e tranquila para "abraçar" a imposição do mercado de ter um corpo magro e "definido", tornando-se refém de dietas rígidas, práticas de controle através de atividades físicas constantes, lipoaspirações, cirurgias plásticas.

Nas sociedades do passado, era mais "fácil" ser infeliz, pois os valores da época ensinavam que o sacrifício e a resignação terrena trariam salvação no além. Hoje, é mais pesado não ser feliz em uma civilização que celebra o ideal da leveza hedonista, dos desejos de felicidade impossíveis de serem satisfeitos resultando numa multiplicação das decepções em relação a uma vida que nunca é leve, dinâmica ou divertida o bastante. Mesmo que as normas sociais vejam seu peso diminuir, a vida parece mais pesada, por todo lado se multiplicam os sinais de desamparo, da nova face do "mal-estar na civilização". Alguns trilham o caminho consumista do "sempre mais" para esquecer ou aliviar sua vida, outros se opõem a essa leveza mercantil "falsa" e alienante, e buscam por "mudanças de vida" no sentido de se livrar dos fardos excessivos que pesam sobre suas existências e combatem a leveza opressiva do consumismo por meio das tecnologias da leveza interior - detox, meditação, ioga, técnicas de relaxamento, bem-estar, feng shui, enfim, tudo aquilo que permita "sentir-se bem com o corpo e a mente". Hoje, há uma constante busca por leveza em matéria de alimentação, aparência pessoal, estilo de vida, mobilidade e comunicação. A leveza tornou-se uma dinâmica global, um paradigma transversal, impregnado de valor tecnológico e econômico, funcional e psicológico, estético e existencial. Seremos capazes de reconciliar o melhor do novo com o melhor do antigo? Será que um novo "espírito de fardo" apoderou-se de nossa época?

Daniela Mussi Escobar Terruggi, Psicóloga clínica; Rio Preto.