Editorial

Desculpas tardias

Para as novas gerações, difícil conceber tal violência. Para os mais velhos, um trauma, uma agressão inesquecível


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Editorial - Reprodução

16 de março de 1990. A partir desta data, a vida de milhões de brasileiros nunca mais foi a mesma. Mudou, e mudou para muito pior. Por conta dos delírios de um aventureiro, pais e mães de família passaram a viver um pesadelo sem fim. Neste dia, o então recém-empossado presidente Fernando Collor e sua equipe econômica, comandada pela ministra Zélia Cardoso de Melo, anunciaram um plano para conter a hiperinflação que, naquela época, era o grande problema e o maior desafio da economia brasileira. Foi o Plano Collor, ou Plano Brasil Novo, seu nome oficial. O país, acostumado aos 'pacotaços' para equilibrar as contas públicas e garantir o poder aquisitivo dos salários, jamais esperaria por um golpe tão duro como aquele.

O governo Collor simplesmente confiscou os ativos das cadernetas de poupança que tivessem depósitos acima de 50.000 cruzados novos, moeda substituída pelo cruzeiro, por dezoito meses. Confisco. Além disso, os reajustes de preços e salários foram congelados, foi decretado feriado bancário por três dias, e houve aumento nas tarifas de serviços públicos, como gás, água e luz. Perplexo, o país parou. Quando os bancos reabriram, filas imensas nas portas, formadas por gente que queria sacar o que havia sobrado. Os bancos não tinham dinheiro para cobrir os saques.

Empresas quebraram, demitiram funcionários, as vendas no comércio despencaram, os pequenos comerciantes faliram, o dinheiro duramente poupado pelas famílias sumiu da conta da noite para o dia. Para as novas gerações, difícil conceber tal violência. Para os mais velhos, um trauma, uma agressão inesquecível.

Esse arrocho fez o país mergulhar numa feroz recessão. Em vez de diminuir, a inflação subiu. O país estava emocionalmente abalado. Há relatos de suicídios, depressão, síndrome do pânico.

O resto é história. Fernando Collor, o primeiro presidente eleito pelo voto direto depois da redemocratização, fundou a República da Dinda, referência à mansão onde Collor morava. Acusado de chefiar um governo corrupto, tendo como fiel escudeiro o tesoureiro PC Farias, morto em circunstâncias nebulosas, Collor não suportou. Caiu quando a Câmara dos Deputados aprovou a abertura do processo de impeachment, em setembro de 1992. Teve seus direitos políticos cassados por oito anos. Hoje é senador por Alagoas. Até hoje o país paga por essas aventuras. Já foram gastos mais de R$ 1,6 bilhão em indenizações e devoluções de planos econômicos fracassados.

Eis que, 30 anos depois, Fernando Collor, cuja característica pessoal mais marcante é a arrogância, pede desculpas à nação pelo confisco.

Antes tarde do que nunca, diriam alguns.

Nesse caso, tarde demais.

Collor e seu plano amalucado, inconsequente e fracassado merecem a lata do lixo da História.