Editorial

Novo normal?

A pandemia é uma triste realidade que, ao que indicam os números ainda em curva ascendente, não desaparecerá tão cedo


Editorial
Editorial - Reprodução

Fala-se muito de uma suposta necessidade de sermos resilientes num mundo que já era extremamente competitivo e que, agora, imerso em uma realidade pandêmica, vive o que andam chamando de um "novo normal" - um mundo em que o medo alimenta todo tipo de teoria. Um mundo em que a insegurança pede respostas urgentes, embaralhadas num universo digital contaminado pelas fakenews. E um mundo em que o isolamento social põe à prova sentimentos e relações, não raro no limite extremo dos sentimentos - da saudade que fica num aceno virtual, da proximidade apartada de quem se ama, da impossibilidade de um adeus.

Diante deste "novo normal", como é possível cumprir aquilo que se define talvez como a principal qualidade de um ser resiliente - a capacidade de se recobrar ou se adaptar frente a situações adversas ou a mudanças? Seria isto possível?

Para a física, resiliência é a propriedade dos corpos de retornarem à sua forma original depois de terem sido submetidos a alguma alteração. Teríamos nós esta mesma capacidade, uma vez submetidos à intensa pressão?

Essa é uma questão comum a todos e que une desde quem está nos gabinetes - vide a delicada situação em que presidente, governadores e prefeitos se encontram em busca de um meio termo capaz de conciliar a indispensável proteção à saúde com a retomada (ainda que gradual) das atividades econômicas - os empresários e comerciantes em momento extremamente desafiador independentemente do tamanho do empreendimento que conduzem e também trabalhadores, seja aqueles que estão empregados e que vivem a natural apreensão de ter a vaga extinta de uma hora para outra, seja aqueles que já engrossam as estatísticas de desemprego no País (boa parte destes na expectativa de conseguir os R$ 600 do auxílio emergencial). Repetição necessária, a pergunta se impõe: como ser resiliente frente a realidade tão complexa? É possível alcançar a resiliência, até que ponto e em quais condições?

Ninguém, absolutamente ninguém, é capaz de dizer como sairemos da fase aguda da pandemia. Sim, porque nem mesmo é possível afirmar que sairemos tão cedo daquilo que triturou fronteiras e fez o mundo encolher ainda mais: a pandemia infelizmente é uma triste realidade que, ao que indicam os números, ainda em curva ascendente, não desaparecerá tão cedo. No máximo, é possível dizer que se a maioria seguir o que preconizam as autoridades de saúde poderemos vislumbrar a médio prazo uma retomada gradual da rotina, dentro do que convencionou-se chamar de um novo normal.

Seja como for este "novo", a realidade não pode prescindir de velhos cuidados: sopesar as ações, buscar o bom senso. Como lembra-nos Isaac Asimov, "nenhuma decisão sensata pode ser tomada sem que se leve em conta o mundo não apenas como ele é, mas como ele virá a ser".