Editorial

Adiar o Enem

O afastamento da escola teve o efeito colateral de escancarar as diferenças socioeconômicas do país


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Editorial - Reprodução

A educação é um dos maiores símbolos das desigualdades sociais no Brasil. Sempre foi. Tanto é verdade que, ao longo dos anos, diversas políticas públicas voltadas à inclusão foram desenvolvidas por sucessivos governos de diferentes matizes ideológicas. Mesmo assim, o país passa vergonha em avaliações feitas por institutos internacionais que avaliam o aprendizado e o nível de conhecimento dos alunos. Sempre ocupamos as últimas posições.

Nenhuma nação civilizada - nenhuma - alcançou o desenvolvimento social e econômico sem investimentos maciços em educação, o que inclui, especialmente, a valorização dos professores. No Brasil, isso não acontece. Professor aqui é tratado na base do salário de fome, sem reconhecimento algum.

No atual momento de enfrentamento da pandemia de coronavírus, os alunos, compreensivelmente, foram afastados das salas de aula. Não havia outra alternativa para prefeitos e governadores. Suspender as aulas foi uma forma de evitar o contágio ainda maior da doença que já matou mais de 14 mil pessoas.

Contudo, o afastamento da escola teve o efeito colateral de escancarar as diferenças socioeconômicas do país e trouxe dificuldades adicionais para milhares de famílias. O plano de Estados e municípios é oferecer aulas online, na televisão e distribuição de material didático para que os alunos possam estudar.

O problema fica mais agudo quando constata-se que boa parte das famílias não tem acesso à internet, nem computador ou televisão em casa. Muitas vezes, nem comida. Nesse caso, a solução encontrada não oferece nenhuma saída, pois iguala os desiguais. Uma massa de estudantes do ensino médio se prepara para fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Só nos primeiros dias, mais de 2,4 milhões de alunos fizeram a inscrição, seja para a prova digital, seja para a impressa.

Mas, que fique claro, esses estudantes estão se preparando para a prova mais importante do ano sem igualdade de condições. Indiferente a esse fato e aos pedidos de um necessário adiamento do Enem, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, garante que vai manter a prova em 2020. Ressalte-se que a presença de Weintraub no Ministério da Educação é um constrangimento só. Boquirroto, inepto, incompetente.

Manter a data do Enem para novembro, nestas circunstâncias, é uma atitude que condenará milhares de jovens a abandonar o sonho de ingressar numa faculdade. É chancelar a iniquidade. Uma injustiça.