Editorial

Duas crises

O ministro Nelson teich, até agora, não disse a que veio. Confuso, é incapaz de traçar um plano coerente de combate à Covid-19


O Brasil enfrenta uma crise sem precedentes na saúde pública. Mais de doze mil mortes foram registradas por conta da Covid-19 desde 26 de fevereiro, data em que o primeiro caso foi confirmado oficialmente. É a população total de muitas cidades da região. Em apenas 24 horas, perderam-se 881 vidas no país. São mais de 170 mil infectados. Recorde trágico. Em diferentes regiões, como Amazonas e Pernambuco, por exemplo, a situação se agrava com o passar das horas. Além dos afastamentos por conta de contaminação dos profissionais de saúde, hospitais estão sem equipamentos suficientes e o isolamento social segue em queda. O vírus atinge o mundo todo. Em menos de cinco meses, foram registrados casos da doença em 180 países.

Contudo, o poder central oferece à nação demonstrações diárias de insensibilidade e inatividade. É como se o coronavírus não existisse. Da total falta de capacidade de gestão do atual ministro da Saúde ao descaso com que o tema é tratado pelo próprio presidente Bolsonaro, os cidadãos brasileiros parecem entregues à própria sorte. Não se tem notícia de nenhum outro governante que demonstre tamanha indisposição para tratar seriamente de um assunto tão urgente.

Monótono, o ministro Nelson Teich, até agora, não disse a que veio. Confuso, é incapaz de traçar um plano coerente de prevenção e combate à Covid-19 e de assistência e suporte a hospitais. Não consegue elaborar nada além de platitudes, obviedades. Até o presidente parece ter constatado sua inaptidão para o cargo. O desafio é grande demais para uma figura tão sem grandeza.

Já o presidente desfila sua incapacidade de demonstrar o mínimo de empatia. Confrontado com o número de mortos e contaminados no país que preside, Bolsonaro entrou para a história com duas respostas que se tornaram símbolos de sua frieza : 'e daí?' e 'não sou coveiro'. Não à toa, é motivo de indignação ao redor do mundo.

Não bastasse o coronavírus, o Brasil enfrenta uma forte crise política, com a revelação do vídeo de uma reunião entre o presidente e ministros. Bolsonaro, segundo denunciou o ex-ministro da Justiça Sergio Moro, pressionou para a troca de comando da Polícia Federal do Rio de Janeiro, com o objetivo de blindar interesses de sua família, alvo de investigações sobre a produção e disseminação de notícias falsas. Segundo foi divulgado até o momento, faltou compostura e sobraram irritação e palavras de baixo calão no encontro entre figuras exponenciais da República.

Bolsonaro precisa, urgentemente e mesmo contra sua natureza beligerante, ter o comportamento que se espera de chefe de Estado num momento tão grave, em que o país passa por duas crises: a da saúde pública e a política.

Solidariedade às famílias das vítimas.