Editorial

Cadê Regina?

A cultura é fonte de receita para o país, responde por quase 3% do PIB nacional, além de gerar milhares de empregos


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O Brasil perdeu, no mesmo dia, o compositor e poeta Aldir Blanc e o ator Flávio Migliaccio. Há poucas semanas, a arte brasileira perdeu também o compositor e cantor Moraes Moreira, o desenhista Daniel Azulay, o escritor Rubem Fonseca. Perdas sentidas pelo grande público, pelo mundo artístico nacional e internacional. Foram, cada qual à sua maneira, mestres na arte de encantar, emocionar multidões de brasileiros de diferentes gerações . A arte que identifica um povo, fortalece suas raízes, expande o conhecimento e refina os sentidos. A arte que engrandece uma nação.

Porém, diante dessas perdas, o silêncio mais ensurdecedor partiu de um gabinete de Brasília. Não se ouviu uma única palavra, um registro, uma manifestação qualquer da secretária nacional de Cultura, a ex-atriz Regina Duarte.

Dona de um vasto currículo que inclui novelas, cinema, teatro, em que interpretou magnificamente grandes personagens, Regina apequenou-se à frente da Secretaria que tem como missão precípua cuidar e prestigiar a cultura nacional. Pela sua história na teledramaturgia brasileira, onde conviveu com astros e estrelas de primeira grandeza, autores, coreógrafos, técnicos, diretores, a atual secretária era portadora de um voto de confiança junto à classe artística por, pelo menos, conhecer a realidade dos palcos e dos bastidores, as dificuldades para encontrar financiamento para as produções de peças, filmes, discos. Diferente de seu antecessor, que resolveu mimetizar o ideólogo nazista Joseph Goebbels num pronunciamento repugnante.

Porém, Regina Duarte tomou posse, fez um discurso em que não apresentou propostas, nem apontou um rumo, um norte para a cultura brasileira que, especialmente neste momento, sofre ainda mais com a paralisação dos espetáculos por conta da pandemia. Artistas parados, sem trabalho, sem renda, dependendo de doações, esperando um gesto, uma atitude da encarregada do setor cultural no governo federal. Mas Regina sumiu, encolheu, calou-se. Virou um enfeite. Não consegue demitir, mal consegue nomear assessores. É escanteada descaradamente pelo presidente e combatida por grupos que apoiam Bolsonaro. Na quinta-feira, a secretária irritou-se durante uma entrevista quando confrontada com uma fala da atriz Maitê Proença e ainda por cima minimizou as mortes durante o regime militar. Deprimente. Regina desempenha seu pior papel.

A cultura é fonte de receita para o país, responde por quase 3% do PIB nacional, além de gerar milhares de empregos diretos e indiretos. Mas está à deriva.

Cadê Regina Duarte?