Cartas do leitor

Manifestações


Contrariando o isolamento, medida recomendada para reter e debelar o atual maior inimigo da humanidade, a epidemia da Covid-19, que está provocando milhares de morte e prejudicando nossa vida em sociedade, militantes bolsonaristas se aglomeram em Brasília para protestar em favor do nosso Presidente. Para quê? Por acaso Bolsonaro está em perigo? Alguém pediu formalmente seu impeachment? Se cometeu falhas graves como, por exemplo, decepcionar a classe média na luta contra a corrupção ao não continuar a ação da Lava Jato, provocando a demissão do eficiente Sergio Moro, ministro da Justiça, será julgado nas próximas eleições, se pretender um segundo mandato. Um governo eficiente não precisa de manifestações populares de apoio!

Salvatore D' Onofrio, Rio Preto

Esperança-pandemia

Estamos passando por muitas experiências inéditas na vida da Igreja, justamente em tempo dos maiores momentos celebrativos ligados à Semana Santa e a Páscoa. Chegamos à Festa da Ascensão do Senhor, comemorando a volta de Cristo para a casa do Pai, mas sem a presença dos fieis nos tempos. Assistimos a volta da Igreja para as casas das famílias, como verdadeiras igrejas domésticas.

Ao voltar ao Pai Jesus atualiza a comunhão entre o divino e o humano, porque realiza a Aliança que Deus fez com Abraão. Ele deixa um legado de transformação na vida da sociedade, convocando o mundo para agir de forma diferente, dando primazia para o amor e a fraternidade. É o que todos esperam desse tempo de pandemia, porque o vírus está mexendo com toda a humanidade.

A esperança exige de todas as pessoas um projeto de ação libertadora e salvadora, feito com responsabilidade. Projeto que passa também pelo cumprimento do isolamento social, forma mais eficiente agora para a defesa da vida. Ficando em casa sofremos o desgaste existencial, a impossibilidade de executar as tarefas planejadas até que tudo volte à sua normalidade.

Todos os projetos das igrejas neste ano estão praticamente suspensos, mas isto não significa fragilidade na condução da fé cristã e nem descompromisso com a vida da comunidade. É oportunidade para as pessoas sentirem a prática cristã no contexto do lar, da mesma forma como viviam as primeiras comunidades cristãs, que não estavam ligadas a templos. Era a Igreja nas casas.

Não é fácil ficar em casa, cada um se privando do direito de ir e vir. Isso não pode ser entendido como exigência das autoridades, mas como iniciativa consciente e madura de cada brasileiro, porque está em jogo a vida dos cidadão. Além de ser um gesto humano, o é também uma atitude cristã, para se evitar a contaminação. Mas temos a esperança de realidades novas na condução do mundo.

Essa pandemia ocasionada pelo coronavirus pode ser perfeitamente interpretada como a afirmação de uma denúncia pública e generalizada contra os diversos sistemas injustos dominadores que se impõem pelo uso da força e da violência. Essa é uma das marcas muito frequentes dos últimos tempos, que causa desrespeito e destruição da vida humana, clamando por justiça.

Dom Paulo Mendes Peixoto - Arcebispo de Uberaba-MG

Inocentes úteis

Os filmes, os livros e até a narração oral da história do Brasil se incumbiram de transformar nossa geração em inocentes úteis. Ainda crianças nos enfiaram na cabeça a existência de uma série de heróis, os quais o tempo se encarregou de desmascarar. Dom Pedro I talvez seja primeira decepção, pois depois de nos mostrarem o quadro dele montado num cavalo branco, pintura de Pedro Américo, a brutal realidade é que "sua alteza" aliviava suas necessidades fisiológicas quando foi alcançado pelo mensageiro que trazia de Portugal, exigência por mais impostos (quinto), anexado vinha o conselho do seu pai "coloque a coroa sobre sua cabeça, antes que algum aventureiro lance não dela", ou seja "vamos, saquear o Brasil antes que percamos a boquinha".

Uma série de heróis foram se desnudando na nossa percepção. As entradas e as bandeiras, grupos de aventureiros financiados pela Coroa (alguns), e os outros pela corte, cujos descendentes são até hoje nomes importantes na política e nos negócios do país, ambas as tropas tinham como função demarcar seus latifúndios e tirar os índios do caminho.

Pobre povo que na sua galeria de heróis só restou Tiradentes, pois até Duque de Caxias o tempo cuidou de mostrar sua face cruel. E a princesa Isabel, que julgou economicamente mais viável facilitar a emigração do que sustentar os escravos a partir da "Lei do ventre livre". Enquanto os Estados Unidos e a Europa exaltam seus Abraham Lincoln , Winston Churchill e os genocidas do faroeste, os brasileiros travestidos de justiceiros demonizam nossos homens públicos com o surrado "político nenhum presta", sem lembrar que a política é essencial numa democracia.

Talvez motivados pelo que foi dito no parágrafo acima, o título de eleitor é visto como uma arma para denunciar supostos mal feitos de opositores políticos, sem considerar que o voto deve servir para eleger dirigentes com competência para solucionar os problemas que surgirem, governando em harmonia com seus governadores, prefeitos, ministros e a ciência.

Povo, pelo amor de Deus, identificar, julgar e condenar corruptos são tarefas da polícia e da justiça, órgãos de estado e não de governo.

Norberto Carlos Diegues, Rio Preto

Editorial

Parabenizo o Diário da Região por mais um oportuno editorial, o da edição de domingo, dia 17, digno da postura e lucidez do jornal ante o dramático cenário que vivemos. Reproduzo, com o fim de chamar a atenção de quem não o leu, seu parágrafo final: "Seja como for este novo (normal), a realidade não pode prescindir de velhos cuidados: sopesar as ações, buscar o bom senso. Como lembra-nos Isaac Asimov, 'nenhuma decisão sensata pode ser tomada sem que se leve em conta o mundo não apenas como ele é, mas como ele virá a ser' ".

Eurípides A. Silva, Rio Preto