HIPÓLITO MARTINS FILHO

Indústria nas cordas

Os acordos comerciais com outros países ainda estão no papel e talvez nem saiam


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A indústria brasileira já vinha mal bem antes da chegada da pandemia da Covid.19. Nada ou quase nada que tinha que ser feito para melhorar a competitividade foi feito. A produtividade vem caindo, as inovações tecnológicas são poucas, a abertura comercial pouco andou e sabemos que irá andar mais devagar ainda com o recrudescimento do protecionismo mundial. Os acordos comerciais com outros países ainda estão no papel e talvez nem saiam.

O cenário econômico mundial vai ter que ser redesenhado. Não podemos ignorar os danos causados pela pandemia - foram e serão muitos - mas a indústria brasileira há muito vem apresentando sinais desalentadores. Com a nova realidade imposta pela crise: o isolamento social, a queda brusca do consumo e da produção, as incertezas diárias, tudo isso levou a uma queda na produção industrial de 9,1% de fevereiro para março e os números do próximo trimestre certamente serão piores.

Essa queda levou a produção industrial ao nível de agosto de 2003 e ficou 24% abaixo do recorde alcançado em maio de 2011. Houve queda em todas as grandes categorias de produtos e em 23 dos 26 segmentos empresariais. O balanço recém-divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta uma piora inegável dos indicadores bem antes da chegada da pandemia.

Portanto, seria um equívoco atribuir à Covid.19 as falhas da política econômica. Pouco foi feito no primeiro ano do governo Bolsonaro. A reforma da Previdência foi relevante, apesar de incompleta, mas é muito pouco para um governo que diz que queria ser eleito para mudar as relações políticas e econômicas até então prevalecentes.

Está claro que este governo é o mais novo integrante da velha política clientelista praticada secularmente no Brasil. Para a pandemia se alastrar e fincar seus males por aqui foi fácil, com algumas exceções encontrou terras férteis para sua multiplicação e disseminação, dado o pouco entendimento do governo federal da gravidade do problema.

O desemprego que já era alto agradece as facilidades que vem encontrando para se expandir. A crise não é só nossa, mas no Brasil varonil as incertezas grassam se tornando adubo eficaz que ajuda a brotar e faz crescer as dores e angústias de uma nação que não consegue se desvencilhar de suas raízes coloniais.

Se tivéssemos uma indústria mais robusta e atualizada poderíamos estar numa situação menos difícil, inclusive na hora que as atividades econômicas retornarem. No entanto, estamos a caminho do pódio, já somos o epicentro da pandemia. No seu primeiro ano de mandato, o governo tratou a economia como assunto inferior.

A recuperação já vinha perdendo vigor, o crescimento no ano passado ficou em 1,1%. A indústria acusou o golpe muito antes, mas continua resistindo ao nocaute técnico. A fragilidade da economia real foi escancarada com a pandemia. Já sabíamos que tínhamos muitos pobres, mas ainda não o tínhamos vistos.