ARTIGO

A um metro de mim

Trouxe-nos, esta fase de crise, a volta de olhares perdidos como o de apreciar o céu


Durante um mês eu deveria andar a pé por um trajeto romano que meu mapa indicava. Isso incluía atravessar a linda Praça Vittorio Emanuelle para chegar à Igreja Santa Maria Maggiore. Dali, girar à esquerda e alcançar a Via Urbana onde se encontrava o estúdio no qual desenvolveria o curso de mosaico. Tudo pertinho do Coliseu. Nos primeiros dias de aula, ainda silenciosa, nada dizia além do necessário. Aos poucos a confiança em falar a língua das Artes foi se instalando e começamos a interagir como cidadãos italianos. A surpresa da professora foi grande quando falei que atravessava a Praça, me deliciava com as imagens que via e as fotografava. Fiquei então sabendo que naqueles idos 2010 a Praça já estava habitada por imigrantes, os extra-comunitários, como eram chamados os ilegais do país.

Nunca havia tido medo até então de atravessar a Praça e aconselhada a não mais fazê-lo, passei a dar a volta por fora da linda Praça para a qual olhava já com saudade. Depois de pouquíssimos dias, entretanto, decidi voltar a passar por ela. Já estava ao meio da rua lateral. Vi que havia um grande portão de ferro, aberto e entrei. A praça ocupa o espaço de mais de um nosso quarteirão e tem quatro entradas. Passos firmes e olhar confiante, entrei com outro olhar e a reconheci habitada por trastes espalhados no chão onde crianças ainda dormiam talvez de fome. Não hesitei em olhar e muito menos em cumprimentar. "Buon giorno!", "Buon giorno!", dizia olhando nos olhos das pessoas. Não me responderam.

Nos dias seguintes continuei a empreitada. Sempre no mesmo horário eu via as mesmas pessoas. Apenas as via e as cumprimentava. Até que uma vez uma criança me sorriu e eu parei. Perguntei em italiano como estava e ela não me respondeu. Tentei em inglês. Nada. Sem conseguir me comunicar por palavras, tentei mais: abri a bolsa, tirei o meu almoço e o ofereci. A linguagem da fome tem mais fluência. A criança sorriu, estendeu a mão onde depositei a comida. Foi quando o pai se aproximou, falou a ela algo que só entendi quando ela me olhou, falou em sua língua alguma coisa e me tocou a mão em agradecimento, abaixando a cabeça em reverência.

Realmente, a linguagem da fome tem fluência mundial. Todos os dias, até terminar o curso, passei por ali e deixei meu almoço até que, no último dia, abanei a mão em despedida depois do beijo jogado no ar sem saber quem eram, como se chamavam, de onde tinham vindo. Trouxe para sempre, em minha vida, o hábito de cumprimentar todas as pessoas com quem cruzo. Hoje, passados dez anos, o Coronavírus me fez lembrar desse fato. Naquela época eu quebrei a barreira do metro que me distanciava do outro sem medo de qualquer contágio, por pura fraternidade, e sinto que fiz a coisa certa porque hoje, com desejo enorme de poder abraçar meus familiares e amigos, não posso fazê-lo. A idade, a recuperação de um mal que me acometeu há meses e as instruções de segurança e proteção contra este invisível vírus me impedem de fazê-lo.

No mundo todo o medo do contato se instalou para que nós, pequenos habitantes deste pequeno planeta, nos apercebamos do quanto é importante o afeto demonstrado. Hoje nos damos conta de que nos faz falta falar por gestos, que faz falta tocar o braço do companheiro de viagem desta vida tão complicada. Trouxe-nos, esta fase de crise por causa do coronavírus, a volta de olhares perdidos como o de apreciar o céu, estar à janela e descobrir que há vizinhos muito próximos, tão próximos e tão distantes... Pudemos descobrir que na família a que estamos confinados é possível se sentar no chão e brincar com os filhos e netos. E se não os temos, que é delicioso tomar um café abraçado ao seu amor, mesmo em silêncio. Estamos reaprendendo a amar, na verdade. Estamos redescobrindo quanto mede um metro de distância para sabermos apreciar o calor do abraço. Estamos administrando nosso espaço para respeitar o espaço alheio.

Estamos, principalmente, aprendendo a ter paciência para que chegue este abraço de vitória. A vitória de cada um que sabe o que faz a distância e ajuda a reconhecer o laço que une cada um de nós, filhos do mesmo Criador. Roma passou a ter para mim um valor acima do histórico. Da beleza que as ruínas ainda possam demonstrar. Da emoção de sentir o solo brasileiro em plena Piazza Navona. De passear por perto do Coliseu e me demorar a tentar compreender as imagens do Arco de Adriano. De passear de barco em Vila Borghese. De apreciar as tantas fontes. De me extasiar diante do Altar da Pátria. Da alegria em ouvir tantas línguas, enquanto se anda a pé pelo centro histórico. De desejar, ao jogar uma moeda na Fontana di Trevi, reencontrar aquelas pessoas da Praça Vittorio Emanuelle, que transformaram minha vida. De entrar em um metrô ou em um ônibus e receber o sorriso de um estranho a me dizer com os olhos: "Bem-vinda ao meu mundo, minha irmã! Eu te esperava!"...

Rosalie Gallo, Escritora, membro da Arlec (Academia Rio-pretense de Letras e Cultura); professora; Rio Preto.