ARTIGO

O dia do reencontro

O isolamento necessário diante da pandemia nos faz perceber a falta que faz o carinho em nossa vida


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Como diz aquele icônico samba enredo da União da Ilha do Governador de 1978 "O que será o amanhã? Responda quem puder" Eu fico imaginando aqui no meu isolamento social que, quando acabar o lockdown, a população será tomada por uma enorme euforia, que nem o réveillon que marcou a virada do século conseguiu uma animação com tanta intensidade. Como diz a Vera Iacovelli em seu artigo na Folha de São Paulo: "não sabemos quando, não sabemos como, mas haja o que houver, haverá carnaval. Não esqueça a fantasia". Posso estar viajando na maionese, mas acho que ao primeiro rufar do tambor, os bares, restaurantes e clubes se encherão de gente que anda roendo as unhas de vontade de ver os familiares - filhos, netos, irmãos, bisnetos - e amigos.

Essa quarentena - como diz o boleraço, "Dois prá lá, dois prá cá" do poeta e compositor Aldir Blanc que nos deixou recentemente - "torturante como um band-aid no calcanhar" está deixando a mocidade louca. Louca para matar a vontade de rever os amigos, de ir aos shoppings, ao clube, ao restaurante, ao bar, tomar um café, um chope, uma cerveja, um vinho, almoçar e jantar. De abraçar e beijar aqueles que se querem bem, de jogar conversa fora num tetê-a-tête, olho nos olhos, gargalhando a vida, chorando alegrias e bebendo o prazer de cada instante. Nada será como antes, pois a amizade e as demonstrações de afeto terão maior intensidade.

Somos um povo acostumado ao toque e disse Giovana Girardi em sua matéria no Estadão: a saudade daquele abraço forte talvez seja o que mais dói nesses tempos tão incertos.O aconchego físico de um abraço ou beijo aumenta o repertório de prazer a cada reencontro. Causa espécie em nós brasileiros, nos filmes norte-americanos em que os filhos depois de muito tempo sem verem os pais e familiares, chegam para passar o Natal ou o 'thanksgiving day' e o cumprimento se resume apenas num " hello" sem qualquer abraço ou beijo.

Estamos saudosos das reuniões dos consórcios sociais na casa dos amigos; dos grupos de futebol, de tênis, de golfe,nos locais dos jogos, tudo isso, com certeza,vai ocupar a agenda de todos, durante muito tempo. Afinal, num piscar de olhos percebemos que a vida se desfaz como uma lufada de vento. Vamos aproveitá-la. O Dia das Mães foi frustrante porque a curva do coronavírus não permite, mas a desforra chega, tenha certeza. E aí vamos rodopiar, cantar, dançar, encontrar aquelas pessoas que sempre ocuparam um espaço em nosso coração e com elas choramingar a ausência obrigada pelo isolamento e afagar o ego com as deliciosas piadas e brincadeiras, coisa de irmãos, das encheções de saco dos torcedores de times adversários, das brincadeiras com o novo corte de cabelos, com as novas medidas que a quarentena ensejou.

Aí sim, vamos desfilar pelos lugares que sempre frequentamos, com o bornal cheio de sentimentos ansiosos. Faz parte do contexto. Somos seres sociais e o isolamento necessário diante da pandemia nos faz perceber mais fortemente a falta que faz o carinho em nossa vida - diz o neurocientista Stevens Rohen, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. E quando a nossa alforria for decretada pelas autoridades sanitárias, o carpe diem começará a valer. Pra valer. Porque esperamos todos morrer bem depois da esperança.

Waldner Lui, Membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura; Rio Preto.