ARTIGO

Inimigo invisível

O vírus não tem ideologia, partido político, preferência por raça, cor, idade, sexo, gênero


    • máx min
-

Estamos reféns de um inimigo invisível que, repentinamente, transformou nossas vidas. A cura há de vir, mas enquanto não chega, o mal nos adverte sobre o que teimamos em não aprender. Há alguns anos, comprei para meu filho uma coleção de livros infantis - "O que cabe no seu mundo?" - que propõe aos pequenos refletir sobre valores como solidariedade e respeito. Tenho pensado bastante neles ultimamente. Afinal, como andam nossos mundos?

Vejamos alguns fatos acerca da Covid-19. A velocidade de propagação do vírus é altíssima. Idosos e pessoas com histórico de doenças pré-existentes são mais vulneráveis à complicações, da mesma forma que populações carentes têm desvantagem óbvia na luta contra ele. Um grande número de pessoas tem sintomas leves, mas há um percentual que precisa de hospitais para manter-se vivo. Sistema de saúde algum comporta uma grande demanda por leitos, aparelhos, materiais de proteção e profissionais de saúde capacitados ao mesmo tempo. Esses mesmos profissionais estão expondo suas vidas em horas de trabalho físico e emocional exaustivo. As comunidades científicas nacional e internacional estão mobilizadas para enfrentar o problema em uma luta contra o tempo. Algumas cidades estão com suas capacidades de internação esgotadas ou no limite, enquanto outras, felizmente, não tem sequer um paciente internado. Por fim, é fato que muitos sofrem isolados em hospitais e nem sempre há um final feliz. Mortes solitárias, lutos solitários.

O vírus não tem ideologia, partido político, preferência por raça, cor, idade, sexo, gênero. De um ponto de vista bastante prático, ele põe as economias mundiais de joelhos e, em sociedades como a nossa, evidencia problemas como a extrema desigualdade social, a miséria, a falta de saneamento básico e o desemprego. Encontremos a cura imediatamente e continuaremos sofrendo dessas mesmas doenças. Isto também é fato.

Diante da complexidade do problema, são necessárias políticas públicas claras para seu enfrentamento. É necessária uma visão global para traçar prioridades, estratégias, buscar minimizar TODAS as perdas e possibilitar a maior estabilidade possível. Serenidade, diálogo e união são essenciais, bem como é imperativo aceitar que sem ciência não há solução.

Nesse contexto, chama atenção a postura do presidente da República que tem gerado polêmicas constantes, chegando ao ápice com o seu "E daí?, quer que eu faça o quê? Sou Messias, mas não faço milagres". Externar nossas opiniões livremente é um direito que alimenta nossa democracia. Preferências ideológicas, político-partidárias devem ser respeitadas. Entretanto, é razoável que esse "Fazer o quê?" tenha partido do presidente diante de todo um país que padece?

Até quando insistiremos nessa postura bélica e egocêntrica que nos divide cada vez mais como nação? A resposta à "O que você quer que eu faça?" poderia ser, no mínimo, lamentar sinceramente, profundamente, cada vida que se vai. Atos responsáveis e amorosos diante da pandemia, bem como uma liderança conciliadora fariam muito bem à sociedade brasileira tão carente de bons líderes!

Cultivemos nossa capacidade de reflexão. Atos têm consequências no presente e no futuro. Precisamos de uma cultura de paz, de cooperação. Fomos feitos para o convívio e somente por meio dele nossas riquezas tangíveis e intangíveis se manifestam. Por isso resistimos ao isolamento. O vírus está aí a escancarar que precisamos uns dos outros mais do que nunca. Cuidemos de nosso legado.

Daniela Reverendo Accorsi Bonilha, Empresária, professora e diretora do Idiom Center Escola de Línguas; Rio Preto.