ARTIGO

Causos caipiras

Todas as tardes, antes de o sol se por, ficava debruçada na janela como se esperasse um príncipe encantado


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Contei aqui há tempos o causo do boiadeiro que pernoitou na fazenda em que morávamos. O homem falou de uma história que nos deixou a todos de cabelos arrepiados. O marido carrasco dissera à mulher no dia do casamento que, se quando engravidasse nascesse uma menina, ele cortaria as duas mãos. "Tenhu ódiu di minina muié". O tempo passou e um ano depois ela engravidou e, ao dar à luz uma menina, para desespero da mãe, foi constatada que a inocente nascera sem as duas mãos.

Coincidentemente, dois amigos leitores deste espaço e de mais de uma cidade entraram em contato comigo para também contar que ouviram, quando crianças, causos semelhantes contados por seus pais, avós ou conhecidos.

Meu amigo Odécio Rossafa ouviu quando rapazinho, lá pros lados da sua Santa Fé do Sul, história bem parecida da que minha amiga Lucia Aguiar Zanin, de Poloni, contou. Disse-me ela que seu pai, Antônio Gonçalves de Aguiar, mais conhecido por Tonho Carrinheiro, natural de Brumado, sertão da Bahia, morreu há pouco mais de um ano, aos 92 anos. Segundo ela, o pai contava sobre um casal de namorados. O moço era apaixonado pela moça. Ela nem tanto por ele. Marcaram casamento e no dia, ele todo enamorado, fez um festão. Recebeu do pai como presente alguns alqueires de terras em local ermo, onde teria que desbastar, plantar e colher.

Depois dos comes e bebes, rumaram a cavalo para uma casinha singela que ele tinha construído com muito esforço nas terras que herdara. A casa tinha até varanda com flores de manacá junto à janela para perfumar a noite tão esperada por ele. A moradia ficava à beira da estrada por onde passava na maioria das vezes gente desconhecida. Segundo a história, ela era uma moça de muita formosura e também muito prestimosa. Em pouco tempo, o jardim em frente ao terreiro tinha flores de todas as cores. No quintal, aves e animais domésticos andavam soltos pelas redondezas. Todas as tardes, depois do banho, na ausência do marido, antes de o sol se por, ficava debruçada na janela como se esperasse um príncipe encantado montado em seu cavalo branco.

Certo dia passou na estrada um homem elegante. Sua montaria ia à marcha apressada. Quando viu a moça na janela, diminuiu. Tirou o chapéu em sinal de respeito e seguiu em frente. No outro dia, à mesma hora, eis que surge na curva do caminho o mistério cavaleiro. E assim foram dias, até que numa tarde ele parou, "apiô", se aproximou e tomou-lhe as mãos num beijo. A partir desse dia, tornaram-se amantes.

Friamente arquitetaram um plano para acabar com o coitado do marido. Ela levou na roça comida envenenada e com a ajuda do amante enterram o corpo na mata ao lado.

Fingindo choro, foi para a casa dos pais dizendo que o marido tinha ido embora com outra. Os pais ficaram desconfiados, mas nada disseram. Meses depois o amante apareceu. No dia do casamento, ao tirar foto para recordação, um caixão estava entre os dois, denunciando o crime cometido por eles. E agora? É lenda ou mentira? E se for verdade?

Jocelino Soares, Artista Plástico, Diretor da Casa de Cultura Dinorath do Valle e Membro da Academia Rio Pretense de Letras e Cultura