ARTIGO

Nós e ela


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Leandro Karnal
Leandro Karnal - R. Trumpauskas/Divulgação

Vivo com discreta melancolia meu terceiro Dia das Mães como órfão. Muitos devem compartilhar o sentimento. A data é um desafio para o enlutado. Poderia falar muito da dor da ausência. Hoje, especialmente hoje, enfatizarei a alegria da vida.

Tive mãe e ela não era perfeita. Sei, a frase soa estranha. Olhada a distância e com a sedimentação do tempo, vejo uma mulher extraordinária que enfrentou 80 anos de desafios fortes.

Nas respostas que Dona Jacyr deu à vida, houve pontos luminosos e, claro, contradições. Nunca idealizei minha mãe, nem em vida e nem agora. Com o passar do tempo, vi com clareza que os pontos complexos eram parte de um jogo mais amplo e menos romântico. Minha querida mãe, divinizada em tantas mensagens de cartões, era um ser humano como tantos.

Aceitar o limite nos pais é um passo de amadurecimento. Na intenção de me preservar (ou, pelo menos, assim que ela supunha), minha mãe mentiu algumas vezes para mim. Temendo viralizar preocupações, ocultou resultados de exames médicos ou notícias ruins. No fundo, sempre supôs que os filhos, apesar da idade, eram frágeis. Como muitas mães, o gesto estratégico de aparar arestas da vida escondia proteção, controle, amor e fantasias de prole imatura. Ela também teve, poucos é verdade, ataques de raiva (menores e menos frequentes do que os meus). O pecado da vaidade a tomava, quando comparava alguns aspectos da sua ninhada com filhotes alheios. O orgulho estendeu-se aos netos. Todos éramos lindos e brilhantes. Os vizinhos?

Arrumados... Simpáticos talvez. O senso crítico e o relativismo nunca se aproximaram do berço de um Karnal. Foi ignorada a sábia parábola da coruja idealizando seus monstrinhos medonhos.

Outro fato: por vezes, eu supus que a cenografia da mesa com todos no Natal era superior ao conteúdo da vontade das pessoas ali presentes. Em outras palavras, imaginei que o mais importante eram o teatro e a aparência. Se todos lá estivessem, tudo correria bem. Bem antes de surgir o termo, era um anseio de "família instagramável". A mesa completa agrada a todas as mães de forma quase obsessiva.

Ao contrário do meu pai que jamais disfarçou a preferência pela minha irmã, minha mãe era dedicada à prática e ao discurso de igualdade. Tudo era dividido em partes matematicamente idênticas O que um de nós recebesse, guardadas as questões de idade e de gênero, os outros ganhariam. A palavra empenhada conosco era inabalável. Se prometesse levar às piscinas do clube no primeiro dia da temporada, não importava (como, de fato, não importou) estar devastada por uma gripe de verão. A palavra era maior do que o vírus. Ia conosco ao carnaval e, como meu pai detestava som alto, ficava na mesa a tarde toda enquanto os quatro, fantasiados por ela, rodopiavam no salão. Não bebia e ficava com refrigerante vendo seus rebentos.

Genuinamente, como quase todas as mães, nossa alegria era a dela, nosso bem-estar a preenchia por completo e nossas doenças a devastavam. Virtudes do materno e do feminino na nossa cultura: minha mãe cuidava muito: de nós, do meu pai, da sogra difícil, do meu tio paterno, do meu tio materno, da vizinha.

Enfermeira de todos, companhia de noites frias em velórios, acompanhante em hospitais: era uma mulher solidária ao extremo. Foi mãe integral e colaborou enormemente para criar os primeiros netos. Com o último, temporão, já não dispunha de forças para um colo prolongado. Vi, na infância, minha mãe fazendo elaboradas tranças na minha irmã e a mesma técnica ser repetida, 30 anos depois, com as netas. Era atávico e emocionante ver que o tempo passava e o amor e o cuidado se mantinham.

No passado, se me perguntassem o motivo do amor pela minha mãe, eu ofereceria uma resposta correta e sincera: ela me deu a vida, ela me ama incondicionalmente, ela esteve comigo em todos os momentos, ela torcia por mim de forma genuína e apaixonada, ela me via, sabia quem eu era e, mesmo assim, tinha uma ligação inquebrável. Tais afirmações eram e continuam sendo verdade.

Hoje, mais maduro e sem ela, vejo que, tendo amado minha mãe também com as imperfeições, entendi que o humano, como eu e como todos, somos dignos do amor. Uma mãe sem jaça teria provocado uma idealização do mundo e a ninguém mais eu teria entregue meu coração. Dona Jacyr era uma mulher extraordinária, como várias mães, dedicada como quase todas as progenitoras e, acima de tudo, falha como todos os filhos de Eva. Dotada desse afeto impactante e da consciência dos limites do mundo, ela me ensinou a amar. Minha amorosa e imperfeita mãe me fez aceitar meus defeitos gigantescos, procurar ser melhor e estar apto ao afeto para com as outras pessoas. Ela foi capaz de amar me conhecendo e eu incorporei seu lado mais humano e menos angelical igualmente. Agora, com certeza, tenho pleno potencial para reconhecer a humanidade claudicante, os defeitos da maioria e, eventualmente, a maldade no meu coração e na alma de alguns.

Hoje é Dia das Mães e eu desejo a todas uma jornada carinhosa. Que os filhos se entreguem ao mistério do amor materno e que as mães também incorporem a humanidade de cada rebento. Que todos se perdoem, condição imprescindível para a coexistência. Que a compreensão domine e que a compaixão aflore. Feliz dia a tantas admiráveis mães. Nós seremos sempre e para sempre gratos. Boa vida para todos nós.

LEANDRO KARNAL, Historiador e filósofo. Escreve duas vezes por semana no jornal Diário da Região e mensalmente na revista Vida & Arte