Peça-chave

Vídeo de reunião expõe governo Bolsonaro

Ex-ministro Sergio Moro acusou presidente de tentar interferir na PF


Reunião Ministerial ocorrida no dia 22 de abril foi divulgada nesta sexta-feira com autorização do STF
Reunião Ministerial ocorrida no dia 22 de abril foi divulgada nesta sexta-feira com autorização do STF - Marcos Corrêa/Presidência da República

O presidente Jair Bolsonaro na reunião ministerial do dia 22 de abril reagiu à possibilidade de uma decisão Supremo Tribunal Federal (STF) impedi-lo de circular no país. Segundo ele, se a Corte tentar impedi-lo terá "uma crise política de verdade" e diz que não vai "enfiar o rabo entre as pernas" em eventual decisão judicial. A íntegra e a transcrição do vídeo foram divulgadas nesta sexta-feira, 22, por determinação do ministro Celso de Mello, relator do inquérito do STF que apura suposta interferência de Bolsonaro na Polícia Federal.

O presidente disse, porém, que tem poder e que irá interferir em todos os ministérios, sem exceção. "E eu tenho o poder e vou interferir em todos os ministérios, sem exceção. Nos bancos eu falo com o Paulo Guedes, se tiver que interferir. Nunca tive problema com ele, zero problema com Paulo Guedes. Agora os demais, vou! Eu não posso ser surpreendido com notícias. Pô, eu tenho a PF que não me dá informações", afirmou. "Eu tenho as inteligências das Forças Armadas que não tenho informações. ABIN tem os seus problemas, tenho algumas informações. Só não tenho mais porque tá faltando, realmente, temos problemas, pô! Aparelhamento etc. Mas a gente num pode viver sem informação."

Durante a pandemia do coronavírus, Bolsonaro visitou comércios e participou de manifestações, contrariando orientações de autoridades sanitárias para o distanciamento social como método para evitar a contaminação. Nesta sexta-feira, 21, o Brasil se tornou o segundo país com mais mortes no mundo. O País tem 21.048 óbitos e um total 330.890 contaminados.

"Por exemplo, quando se fala em possível impeachment, ação no Supremo, baseado em filigranas, eu vou em qualquer lugar do território nacional e ponto final! O dia que for proibido de ir pra qualquer lugar do Brasil, pelo Supremo, acabou o mandato", disse o presidente.

Em seguida, Bolsonaro continua: "E, espero que eles não decidam, ou ele, né? Monocraticamente, querer tomar certas medidas porque daí nós vamos ter uma crise política de verdade. E eu não vou meter o rabo no meio das pernas. Isso daí... zero, zero. Tá certo?", diz.

O presidente diz que, se um dia for flagrado em ato de corrupção, ele vai para o impeachment "sem problema", mas não aceita um processo de impedimento por algo que considera "frescura" e "babaquice. "Se achar um dia ligação minha com empreiteiro, dinheiro na conta na Suíça, porrada sem problema nenhum. Vai pro impeachment, vai embora. Agora, com frescura, com babaquice, não!".

Decisão

O decano do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Celso de Mello, decidiu nesta sexta-feira (22) levantar o sigilo de quase todo o vídeo da reunião ministerial ocorrida em 22 de abril no Palácio do Planalto. O vídeo é considerado uma das peças-chave no inquérito que investiga as acusações feitas pelo ex-ministro Sérgio Moro de que o presidente Jair Bolsonaro tentou interferir politicamente na Polícia Federal para obter relatórios de inteligência.

Em sua decisão, Celso de Mello apontou aparente "prática criminosa" cometida pelo Ministro da Educação, Abraham Weintraub.

"Não vislumbro, na gravação em causa, matéria que se possa validamente qualificar como sendo de segurança nacional nem constato ofensa ao direito à intimidade dos agentes públicos que participaram da reunião ministerial em questão, mesmo porque inexistente, quanto a tais agentes estatais, qualquer expectativa de intimidade, ainda mais se se considerar que se tratava de encontro para debater assuntos de interesse geral, na presença de inúmeros participantes", escreveu Celso de Mello.