NOVO COMANDO

Após saída de Teich, Bolsonaro determina uso de cloroquina

Medicamento deve ser usado em pacientes com sintomas mais leves


O médico Nelson Teich, que deixou o cargo de ministro da Saúde nesta sexta, fez um pronunciamento de despedida, no qual fez um balanço da sua curta atuação à frente da pasta
O médico Nelson Teich, que deixou o cargo de ministro da Saúde nesta sexta, fez um pronunciamento de despedida, no qual fez um balanço da sua curta atuação à frente da pasta - MArcello Casal Jr/Agência Bras

Alçado a chefe interino do Ministério da Saúde nesta sexta-feira, 15, o general Eduardo Pazuello deve assinar o novo protocolo da pasta que libera o uso da cloroquina até mesmo em pacientes com sintomas leves da Covid-19. A medida é uma determinação do presidente Jair Bolsonaro - procedimento que o oncologista Nelson Teich se recusou a cumprir. Atualmente, a orientação é para profissionais do sistema público de saúde prescrever a substância apenas em casos mais graves.

Teich pediu demissão nesta sexta-feira após entrar em choque com o presidente Jair Bolsonaro. Segundo o Estadão apurou, a auxiliares, o ministro alegou questões técnicas para deixar o cargo. O ministro se reuniu com o presidente pela manhã. Ele vinha travando uma queda de braço com Bolsonaro sobre a recomendação do uso de cloroquina em pacientes de Covid-19.

O Brasil registrou 824 mortes decorrentes do novo coronavírus nas últimas 24 horas, segundo atualização feita pelo Ministério da Saúde nesta sexta. Com isso, o País já contabiliza, ao todo, 14.817 óbitos por covid-19. Ainda de acordo com a pasta, há pelo menos 2.300 mortes em investigação para identificar se a causa foi a covid-19 ou não.

O número total de casos confirmados da doença está em 218.223, com um recorde de 15.305 novos registros nas últimas 24 horas. Dos casos confirmados de coronavírus no País, 118.436 estão em acompanhamento e 84.970 estão recuperados.

Desde que assumiu o cargo, Teich não conseguiu montar sua própria equipe e vinha sendo tutelado pela ala militar do governo, como revelou o Estadão. A expectativa de técnicos do ministério é a de que os critérios sejam apresentados já na próxima semana, mesmo sem que Bolsonaro tenha escolhido o substituto de Teich. A recomendação da substância foi o centro da divergência entre o presidente e o ministro demissionário.

Diante do impasse sobre a cloroquina, Teich chegou a propor a Bolsonaro um mega estudo, de autoria da própria pasta, para definir novas diretrizes sobre a recomendação da substância no combate ao novo coronavírus. As análises serão realizadas, mas o presidente cobrou urgência. A "demanda" foi apresentada a Teich na quinta-feira.

O protocolo avalizado por Pazuello deverá ser baseado na resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM). Em abril, a entidade liberou a aplicação da substância em pacientes com sintomas leves, mas ressaltou que a decisão foi tomada "sem seguir a ciência", apenas para encerrar a polarização em torno do medicamento.

Com a decisão, médicos estão autorizados a prescrever o medicamento. No entanto, não há um protocolo de distribuição do remédio para que pacientes possam ter acesso à droga no sistema público. As diretrizes também poderão especificar dosagens a serem administradas.

Hoje, protocolos do Ministério da Saúde recomendam o medicamento para pacientes em ambiente hospitalar e em estado moderado ou grave. A hidroxicloroquina pode causar efeitos colaterais graves, como parada cardíaca.

Eduardo Pazuello sentou-se ao lado de Nelson Teich durante o pronunciamento em que o agora ex-ministro anunciou sua saída, na tarde desta sexta-feira. No discurso, o médico não abordou os motivos que o levaram a anunciar a se demitir, mas deixou claro que foi uma escolha sua.

 

O pedido de demissão do ex-ministro Nelson Taich repercutiu entre políticos da região. O deputado federal Geninho Zuliani (DEM) lamentou o episódio.

"O ex-ministro Teich não se sujeitou à guerra de narrativas ou mesmo a imputação de como deveria agir, em desacordo com os princípios vetores da gestão pública, sempre obedecendo a ciência e não a caprichos dos chamados 'Donos do Poder'", afirmou Zuliani.

Para o deputado federal Luiz Carlos Motta (PL), "o conflito e esta instabilidade na definição da forma efetiva que o governo deve adotar para conter o avanço da Covid-19 estão expondo o povo a riscos". Fausto Pinato (PP), de Fernandópolis, aponta falta de personalidade de Teich. "Não tem posicionamento definido e, mesmo se tivesse, acho que não teria coragem de defendê-lo", afirmou.

O prefeito de Rio Preto, Edinho Araújo (MDB), disse que é preciso ter unidade de ação neste momento.

(Com Arthur Pazin)