SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | SEGUNDA-FEIRA, 26 DE JULHO DE 2021
PAINEL DE IDEIAS

A música, entre o Borá e o Canela

A cidade era mais musical, eu acho. O Automóvel Clube pro movia o Famus – o concorrido Festival Amador de Música. No ginásio do Palestra aconteceu certa vez o concurso ‘Guitarra de Ouro’

José Luís ReyPublicado em 17/07/2021 às 16:46Atualizado há 18/07/2021 às 07:47
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José Luís Rey | jlrey@paginaimpar.com.br (Divulgação)

Alguém, um dia, ainda vai escrever a história da música em Rio Preto, contar as aventuras e desventuras das pessoas que se atreveram a fazer o fundo musical da cidade – da Orquestra Municipal regida pelo maestro Quaranta ao Grupo Apocalipse, da Banda Paratodos de Florindo Mani ao Realejo, passando pelos “conjuntos” decalcados no êxito dos Beatles, aí pelos anos 60. Acho que o Lelé Arantes já me disse, uma vez, que acalenta este projeto, mas a ideia patina nas proverbiais dificuldades de publicar um livro em nosso país.

A música rio-pretense é uma seara na qual tenho mesmo medo de entrar, pelo risco certo de omitir nomes e iniciativas importantes, tantas são as figuras envolvidas nesse assunto. Mas não há nada que consiga traduzir com mais precisão o lento e longo processo de modernização da cidade do que a evolução dos ritmos que marcaram o compasso da grande melodia escrita pela história.

Há alguns poucos anos, li o instigante “Rio Preto na Rota dos Asteróides”, livro de memórias e de investigação saudosista publicado em 2000 pelo arquiteto rio-pretense Aristides Coelho Neto. A pretexto de relatar a trajetória do grupo musical diletantista “Os Asteróides” (do qual fazia parte com mais três amigos), Coelho repõe fragmentos importantes da história da cidade nesse período, fixando-se com especial atenção na notabilidade do rádio para a sociedade da época.

De fato, o rádio dos tempos pioneiros – com seus auditórios lotados, de onde eram transmitidos programas ao vivo – parece ter uma história imbricada com a música. Nos anos 60, época dos “Asteróides”, os conjuntos musicais (hoje esquisitamente apelidados de “bandas”) nasciam e floresciam com o objetivo de apresentarem-se na be-oito, na Difusora... Os apresentadores de programas concorrentes assediavam esses grupos na tentativa de convencê-los a tornarem-se seus “artistas exclusivos”, ainda que sem oferecer nenhum tipo de vantagem financeira.

“Os Cometas”, “The Five Kings”, “Big Boys”, “Lonely Boys”, “Mugs”, “Vox VI”, “Saturno Som” e “Apocalipse”, entre outros, surgiram mais ou menos dentro desse mesmo contexto, inicialmente com repertórios comportados – que incluía sucessos de Trio Los Panchos, por exemplo – e depois chegando à rebeldia consentida de uma época em que o ato de ir a uma farmácia comprar preservativos era um difícil exercício de dissimulação e coragem.

A cidade era mais musical, eu acho. O Automóvel Clube promovia o Famus – o concorrido Festival Amador de Música. No ginásio do Palestra aconteceu certa vez o concurso “Guitarra de Ouro”. Os conjuntos apresentavam-se em bailes pela região e proliferavam em todo canto as tais “brincadeiras dançantes” entre colegiais que bebiam licor de menta, fumavam Minister king size e ouviam “Je t´aime”.

Para outro público, o maestro Roberto Farath tocava no Automóvel Clube, sempre aliando sua técnica e sensibilidade invejáveis a uma incontida espirituosidade crítica que o fazia escolher entre o risco de perder o amigo, nunca a piada. É Coelho quem conta em seu livro que, certa vez, durante apresentação de gala no clube, com a presença do embaixador de Portugal no Brasil, sob clima de pompa e circunstância marcado até mesmo pela presença de policiais circunspectos em uniforme de gala, a embaixatriz empolga-se e pede para alguém dirigir-se até o palco com um pedido musical:

- Peça para a orquestra tocar “Elvira”!

Quando sussurrou o pedido no ouvido do maestro, o mensageiro e todos os presentes puderam ouvir a resposta de Farath pelo microfone:

- Olha, diga para essa dona que a única Elvira que eu conheço é “Elvira do Ipiranga às margens plácidas” – a última frase entoada em ritmo de Hino Nacional.

Viva a música!

JOSÉ LUÍS REY, Jornalista em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos

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