Um ator, um papa e um homem pintado de vermelho
Entre a mensagem de Antônio Bandeiras ao papa Leão e a exposição humilhante de um idoso vulnerável existe um abismo moral. De um lado a dignidade humana, do outro sua banalização. Aqui em Rio Preto estamos todos doentes

Durante a visita do Papa à Espanha, o ator Antônio bandeiras disse à Leão XIV: "Sou vítima do feitiço de Deus".
A frase me fez parar: Em poucas palavras, Bandeiras descreveu algo que muita gente já sentiu e tem dificuldade de explicar. Há momentos em que somos tocados por algo maior do que nossos planos.
Chamou atenção sua observação sobre a arte. Segundo Bandeiras, ela ajuda a recuperar a profundidade e a alma que a inteligência artificial tenta roubar. Talvez por isso a arte continua a ser necessária.
Um quadro, um filme, uma canção não existe para resolver problemas e, sim, para nos lembrar quem somos. Foi esse território que apareceu naquele encontro entre um ator e um papa.
Este contraste ficou evidente nos últimos dias com um episódio que causou indignação em Rio Preto. Um morador de rua de 83 anos foi exposto em uma situação degradante após aceitar uma pequena quantia em dinheiro para que seu corpo (cabelo e barba) fosse pintado de vermelho.
A cena foi filmada e divulgada nas redes sociais. Rapidamente a repercussão ultrapassou os limites da internet e provocou revolta. O que mais chocou não foi a tinta vermelha. Foi a utilização da fragilidade humana como forma de diversão e lacração nas redes sociais.
A vulnerabilidade daquele senhor, somada à sua idade avançada, transformou o episódio em algo muito mais grave do que uma simples brincadeira de mau gosto.
A velhice deveria despertar cuidado e proteção. No entanto, em um ambiente dominado pela busca de curtida e visualizações, nem sempre esses valores prevalecem. Pergunto: até onde vai a necessidade de aparecer do que reconhecer a dignidade do outro?
Existe uma diferença fundamental entre estender a mão e se aproveitar de quem precisa dela. Entre oferecer ajuda e explorar a fragilidade.
Quando a vulnerabilidade de uma pessoa se torna espetáculo, algo essencial da nossa humanidade se perde. Que a expressão "feitiço de Deus" que Bandeiras citou no seu discurso frente ao Papa, seja justamente a capacidade de enxergar além das aparências. É compreender que o valor de uma pessoa não depende de sua condição econômica, moradia ou idade.
Uma sociedade revela sua grandeza não pela forma como trata os poderosos, mas pela maneira como cuida dos mais frágeis.
Entre a mensagem de Antônio Bandeiras ao papa Leão e a exposição humilhante de um idoso vulnerável existe um abismo moral. De um lado a dignidade humana, do outro sua banalização. Aqui em Rio Preto estamos todos doentes.
Regina Chueire
Médica, professora da Famerp e diretora do Lucy Montoro/Funfarme.