Comece hoje pagando a partir de R$5/mês no plano mensal
ARTIGO

Sobre namorados, amores e fúrias

Para além de conhecer o passado, é preciso buscar não repetir os mesmos erros

por Monica Abrantes Galindo
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
Diário da Região
Galeria
Diário da Região
Ouvir matéria

Na semana do Dia dos Namorados, é bom lembrar que namoros e amores nem sempre se manifestaram e foram como são hoje. A história é feita de relacionamentos - amorosos e violentos - e os relacionamentos têm história.

Assisti recentemente a um longa-metragem de animação brasileiro, de 2013, chamado “Uma História de Amor e Fúria”. Trata-se de um guerreiro imortal que, alinhado com a história do Brasil, vai reencontrando Janaína, seu grande amor, em diversos corpos, espaços e tempos. Esses encontros acontecem sempre em um contexto de lutas contra tipos diferentes de injustiças sociais.

O guerreiro passeia no tempo. Passou pelo período da colonização brasileira, onde a injustiça se manifestava na violência dos colonizadores contra a população, chamada de indígena, que originariamente vivia aqui.

A seguir, o guerreiro imortal participa da Balaiada, revolução de 1838 a 1841, que se iniciou no Maranhão, e enfrenta a violência na luta contra a opressão imposta à população no período.

Em 1970, o personagem aparece na ditadura militar, lutando contra a ditadura e sendo torturado junto com Janaína.

Finalmente, o filme prevê um futuro, não muito distante, no qual o casal enfrenta a disputa entre ricos e pobres pelo controle da água. Ou melhor, um tempo no qual o que define ricos e pobres é o controle da água.

Uma frase importante do filme é: “viver sem conhecer o passado é andar no escuro”. Para além de conhecer o passado, é preciso buscar não repetir os mesmos erros.

Olhando para sua própria história, o guerreiro percebe que seus heróis “nunca viraram estátuas, morreram lutando contra os caras que viraram”. O apagamento das lutas e de personagens nacionais é revelado, quer seja, por exemplo, na narrativa da abolição do regime escravocrata, que ignora a pressão das revoltas que os escravizados travaram desde o primeiro grupo de africanos que aqui chegou, quer seja na visão sobre os bandeirantes, que ainda são associados a heróis desbravadores, sem que se fale do massacre dos povos originários que eles protagonizaram.

No filme, no decorrer do tempo, o nome do guerreiro imortal muda, sua ocupação muda, seu território e até seu ânimo mudam diante das lutas que travava. O que não mudou, embora tenha se manifestado de diversas maneiras, foi seu amor por Janaína e seu envolvimento com fúria na luta por justiça social. O que também permanece é que, tanto no caso do amor como no caso da justiça, ambos precisam ser constantemente defendidos.

Monica Abrantes Galindo

Vice-diretora da UNESP de Rio Preto, professora, participante dos coletivos Mulheres na Politica e CDINN -Coletivo de Intelectuais Negras e Negros.