O Coração do Silva
Silva concebia-se nas artes com o pulsar aberto às paixões. Apeou-se daqui quando o coração não mais resistira e decidiu-se em sossegar

O coração velho de guerra dava sinais de cansaço, vontade de parar. Passou a agir assim não só por causas da idade, mas de desilusões reais ou fictícias. Esse órgão do corpo possui estranha autonomia, reage aos acontecimentos, pensava. “O coração tem razões que a própria razão desconhece”, no dizer do matemático e filósofo Blaise Pascal. Passional, intempestivo, espargindo soberbas e fazendo de si uma criatura que se comprazia em adorá-la ao espelho, José Antônio da Silva encarnava o “homem cordial”, na acepção de Sérgio Buarque de Hollanda em “Raízes do Brasil”. Pensava, via, calculava, ouvia e determinava-se na literatura e na pintura guiado por vozes que lhe saíam do peito.
No “Romance de Minha Vida” (1949), o melhor de seus livros, publicado pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo, o artista se recorda de que seu “coração não aguentava aquelas tristezas”. Seu órgão vital prenunciava o futuro: “meu coração não deixava de contar qualquer coisa de ruim que estava para acontecer”; “meu coração contava tudo que eu ia passar”. E se postava como o centro da vida: “meu coração dava um batido diferente”; “meu coração cortava de dó”; “meu coração tremia”; “meu coração deu umas pancadas agitadas”.
No segundo romance, “Maria Clara” (1970), diz que “guardo o Brasil em meu coração e transporto-o para as telas”. Confessa que “o coração de um artista puro e verdadeiro é comparado a uma flor que, ao ser apanhada, murcha”. Diz, liricamente: “Meu coração é um paraíso; é um jardinzinho onde a tristeza aninhou; todos os dias meu coração dói”. Recorda-se de que uma ambulância “deu uma brecada tão forte que doeu meu coração de caboclo sentido”. Ao ver a amada tão malvestida, diz que “aquilo me cortou o coração, ficou roxinho de dor”; as lágrimas de Maria Clara “caíram no meu braço, eram quentes, saídas do coração”, era o mesmo que “espetar um punhal em meu coração”. Em “Alice” (1972), referindo-se à mulher por quem o artista estava apaixonado, diz “com o coração preto de dor” que quando ela soluçava “eu também chorava por dentro, machucando o meu coração de artista”. Mas acusa a namorada: “Só podia ser você que está com o coração podre de ódio”.
Silva concebia-se nas artes com o pulsar aberto às paixões. Apeou-se daqui quando o coração não mais resistira e decidiu-se em sossegar. Mas, parece, José Antônio da Silva já conhecia outros lares pela frente. No romance “Maria Clara”, num devaneio a resumir o seu estar entre nós, conta que já estivera no Céu, no Inferno. E presenciou, na dimensão dos sonhos, que todos no paraíso o conheciam e admiravam sua obra. Como o “homem cordial” a acenar as raízes do Brasil, escreveu que, ao desligar-se deste mundo, “me deu uma comoção de alegria e o meu coração não parou mais de bater”. Isto se deu na capital paulista, na madrugada de 9 de agosto. Em 1996.
ROMILDO SANT’ANNA
Crítico de arte e jornalista. Livre-docente pela Unesp, é membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos