Nomes e nomes
No limite entre a linguagem e a identidade, os nomes nos seguem como sombras sonoras. Os antigos nomeavam bebês pelas qualidades de animais e a paisagem circundante

Nada existe de mais próprio que os substantivos próprios. O étimo e sonoridade das palavras formulam devoções, ideologias, memórias, homenagens... Há quem acredite que a graça com que se averba um rebento influencie, aguçe qualidades e molde seu jeito de ser. Assim, o camaradinha inocente obriga-se ao ônus de ter a cara do nome que lhe deram. Óbvio, nem sempre dá certo. Conheci um Carlos que, em vez de poeta, o melhor que fazia eram falsos testemunhos. E uma Luzia que trazia na língua toxinas capazes de envenenar um altar inteiro de santas.
No limite entre a linguagem e a identidade, os nomes nos seguem como sombras sonoras. Os antigos nomeavam bebês pelas qualidades de animais e a paisagem circundante. No cozimento místico dos civilizados, e sendo a criança uma dádiva de Deus, surgiram os Deodatos (dados por Deus) e Teodoros (presentes de Deus). Lucilas surgem de pequenas luzes; outras são Sílvias silvícolas, filhas das selvas. Renato é o renascido (pelo batismo) e Nonato, o não-nascido (em parto normal). César queria dizer “cortar”. Daí o Dr. Cesário e cisões cesarianas.
Nélson Rodrigues transpirava ao nomear seus personagens. Apadrinhava desafetos: Dr. Palhares e Almeidinha de antemão eram canalhas; Bezerra, um cretino que dava em cima da cunhada aos olhos da própria esposa. Sérgio Porto que, no “lado b”, assinava Stanislaw Ponte Preta, lembra-se de um pintor de paredes chamado Leônio Xanás. De pronúncia bizarra, constata que tal nome ajustava-se também à marca de algum xarope para tosse ou vinho tinto barato. Gozador, foi à loja de lenços de seda e pediu meia dúzia de Leônio Xanás. A balconista, atordoada, foi consultar o gerente. Este, solícito, aproximou-se e se desculpou: Infelizmente, cavalheiro, estamos em falta... Mas, semana que vem, receberemos outra remessa. De Leônio Xanás!
Na ingenuidade imodesta, a pobreza sonha com pompas. Quem não conhece pessoas chamadas Deivid e Carolaine? Quem enxerga o Brasil pelo arranque das chuteiras imagina que nascemos nas estranjas. É que, padecendo na marca do pênalti, quanto mais carente é um povo, mais se ajoelha aos poderes e modas dos impérios. Porém, filhos da iniquidade, surgem incríveis atletas de apodos estapafúrdios.
Os nomes põem-nos na cara seus preceitos, réguas, compassos. Na raiz de Judas estava Judá, “o que era lembrado, festejado”. Mas, atraiçoando o bom nome, cometeu a mais infame traição. O livre-arbítrio decretou-lhe o mal destino e o mortificou em vida, pobre diabo! Mas, como sempre, tudo se acaba em glórias e desdouros. E, nas rodas do destino, bate-me à porta, de chofre, o J. Pinto Fernandes. Pede-me espaço ao fim desta crônica. E cá está ele, em pessoa física e jurídica. Explica-me que quer homenagear seu criador, o maravilhoso Carlos. Magno, literalmente. E mineiríssimo. Afamado escritor da nossa terra.
ROMILDO SANT’ANNA
Crítico de arte e jornalista. Livre-docente pela Unesp, é membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos