É hora de quê?
Talvez seja hora de olhar para o outro com mais empatia, de combater a injustiça, de renovar nossa fé e de viver a alegria com responsabilidade.

A canção dos Titãs brada desde as ondas FM até os streamings de música e vomita: “Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?”. Essa provocação há algumas décadas nos instiga a refletir sobre nossas necessidades mais profundas, que vão além do alimento físico. Em tempos de incertezas e divisões, pode ser hora de repensar o que deveríamos buscar enquanto sociedade: mais empatia, mais justiça e mais conexão. E então: o que nos move hoje?
O racismo no Brasil continua a ser uma chaga histórica que não pode ser ignorada. É hora de ser antirracista. Combater o racismo é responsabilidade de todos, não só em ações legais, mas em atitudes cotidianas, reconhecendo as desigualdades persistentes e promovendo respeito. O preconceito, em suas múltiplas formas — machismo, homofobia e intolerância religiosa — também exige nossa atenção. É hora de combater todas as formas de discriminação, entendendo que a diversidade é a base de uma sociedade justa e inclusiva.
Em meio a essas questões sociais, é também hora de elevar nossos pensamentos a Deus. Durante a quaresma, período do calendário da Igreja Católica que se inicia na Quarta-feira de Cinzas, para muitos é tempo de penitência, reflexão e preparação para a Páscoa, que lembra a morte e ressurreição de Cristo.
No decorrer deste período, somos convidados a seguir o exemplo de Jesus, que praticou o amor ao próximo e a misericórdia. Jesus, como judeu, também celebrou o Pessach, a Páscoa judaica, um momento de liberdade, memória e libertação, celebrando a saída dos judeus do Egito, abandonando a escravidão e partindo em busca da Terra Prometida. Esse paralelo nos lembra que a missão de Cristo é, acima de tudo, libertadora e transformadora, e devemos refletir sobre isso neste período de introspecção e ação.
A oração é outra prática importante que nos reconecta com o divino. As orações da madrugada, que remontam aos laudes da Igreja medieval, têm ressurgido no Brasil, oferecendo aos fiéis um espaço para a paz interior, a reflexão e o encontro com Deus. Na Igreja medieval, essas orações antes do nascer do sol representavam a oferta das primícias a Deus: consagrar os primeiros movimentos de nossa alma às orações. Não importa a hora, mas a prática constante que acalma e fortalece a alma, trazendo alívio nas dificuldades.
É hora, também, de refletirmos sobre nosso papel como cidadãos. Vivemos em uma era de informação instantânea e de polarização extrema, na qual, muitas vezes, nos fechamos em bolhas ideológicas e perdemos a capacidade de dialogar. É hora de recuperar o respeito pelo debate de ideias, de cultivar o pensamento crítico e de agir de maneira responsável, tanto no ambiente digital quanto fora dele. O discurso de ódio, a disseminação de notícias falsas e a intolerância política corroem os alicerces da democracia e ameaçam a construção de um futuro mais harmônico. Precisamos estar atentos e dispostos a defender o diálogo, a verdade e o bem comum.
"É hora de agir, refletir e construir um mundo mais justo, mais fraterno e mais acolhedor"
Então, é hora de quê? Talvez seja hora de olhar para o outro com mais empatia, de combater a injustiça, de renovar nossa fé e de viver a alegria com responsabilidade. A canção dos Titãs nos desafia a buscar algo mais profundo do que as necessidades imediatas. É hora de agir, refletir e construir um mundo mais justo, mais fraterno e mais acolhedor.
PROF. DR. JOÃO PAULO VANI
Presidente da Academia Brasileira de Escritores (Abresc), é pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da USP. Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados