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ARTIGO

Trump e a maioria silenciosa

O discurso “patriótico” de Trump colocou em primeiro lugar os interesses do cidadão médio

por João Francisco Neto
Publicado em 03/09/2025 às 19:59Atualizado em 04/09/2025 às 01:49
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Em 1969, o presidente americano Richard Nixon, visando obter o apoio da opinião pública para enfrentar as crescentes manifestações de rua contra a Guerra do Vietnã, convocou a imprensa e proferiu um vigoroso discurso, em que apelava pelo apoio da “maioria silenciosa”.

Para ele, a maioria silenciosa seria composta pelo grande número de cidadãos americanos que não saíam às ruas para protestar, e que, ao contrário, seriam favoráveis à continuação do conflito. A chamada “maioria silenciosa” seria formada pelos cidadãos comuns, contrários aos valores da contracultura da época, e que pretendiam apenas viver normalmente e criar seus filhos num país estável e seguro. O discurso foi muito bem recebido pela população americana, e Nixon, convencido de que detinha o apoio da maioria silenciosa, logo enviou mais tropas para o Vietnã.

Hoje, tanto tempo passado, a maioria silenciosa norte-americana é composta por cidadãos brancos simples, empobrecidos, desempregados, muitos deles trabalhadores rurais do meio-oeste, que não se sentem representados pelos governos dos Democratas. São pessoas que outrora gozavam de uma confortável situação econômica, mas que hoje, amargando o desemprego e a falta de perspectiva, veem com desconfiança os trabalhadores estrangeiros que se submetem a qualquer emprego. Também não entendem (ou não querem entender) a razão pela qual as empresas americanas optam por se instalar fora do país, suprimindo os seus empregos em território americano.

Para esses americanos médios da maioria silenciosa, o governo democrata estaria privilegiando minorias, como negros, hispânicos, mulheres e até imigrantes ilegais. Para os integrantes da maioria silenciosa pouco importa o que se passa na Síria ou no Iraque. Da mesma forma, pouca importância dão a tratados de livre comércio, protocolos e acordos ambientais para redução da emissão de gases, etc. No fundo, gostariam de recuperar o antigo e confortável padrão de vida, alimentado pelo “sonho americano”, que hoje se esvaiu por força da globalização dos mercados.

Em seus dois mandatos, Donald Trump tem atuado justamente neste vasto setor da população americana, prometendo-lhes a devolução de seus empregos e a primazia das políticas públicas americanas, ainda que, para isso tenha que descumprir acordos comerciais, tratados, convenções, etc. Em resumo, o discurso “patriótico” de Trump colocou em primeiro lugar os interesses do cidadão médio americano. Não por acaso, seu slogan de campanha (e de governo) é “Make America Great Again”, ou seja, “Tornar a América Grande Novamente”.

É para essa gente que Trump faz campanha. Milhões de cidadãos frustrados, que nos últimos tempos sentiam-se decepcionados e desmotivados para participar do jogo político, agora foram despertados pelo discurso politicamente incorreto de Trump. O recado foi recebido pela maioria, que, embora silenciosa, não é surda. O resultado está aí.

João Francisco Neto

Advogado, doutor em Direito Econômico e Financeiro (USP). Monte Aprazível-SP