O Altar do Sentimento Sertanejo
A viola, cumpadi e cumadi, não é um instrumento qualquer. Ela é a extensão do corpo do caboclo

Há quem diga que o tempo corre depressa demais, engolindo tradições e modernizando o que deveria ser eterno. Mas quem subestima a força da cultura caipira claramente nunca pisou em Poloni em dia de festa. No próximo dia 6 de junho, a pacata cidade se transforma no epicentro de uma devoção que não se explica, apenas se sente: o 25º Encontro de Violeiros. Vinte e cinco anos. Bodas de prata de uma resistência cultural que ecoa no peito de cada caboclo.
Olhar para essa trajetória é, antes de tudo, aplaudir a teimosia bonita de Daniel Pereira. Idealizador e guardião dessa bandeira, Daniel é o maestro que, há um quarto de século, carrega nas costas a responsabilidade de erguer esse evento de magnitude nacional. Não é tarefa para qualquer um. É preciso ter o coração afinado com o sentimento da roça para trazer violeiros dos quatro cantos do Brasil, transformando Poloni em um santuário da música de raiz.
E eles vêm. Vêm de longe, trazendo na bagagem o cansaço da estrada e o brilho nos olhos. Durante o dia todo e adentrando a noite, o que se vê é uma comunhão pacífica. Os amantes da boa e velha moda caipira não precisam de muito para serem felizes; basta o tilintar do aço. Ali, o público vai se "embriagar" — no sentido mais poético e figurado da palavra — não de vinho, mas do som sagrado da viola. É uma embriaguez d’alma, daquelas que limpam as vistas e acalmam o peito.
Porque a viola, cumpadi e cumadi, não é um instrumento qualquer. Ela é a extensão do corpo do caboclo. Quando o ponteio começa, parece que o instrumento ganha voz para traduzir as alegrias, as lidas, as perdas e os amores de quem conhece a vida do campo. Ela fala diretamente à alma. É o lamento do rio, o aviso da chuva, o calor do fogão a lenha.
Esse ano, o evento vai homenagear a dupla de Brasília, Zé Mulato e Cassiano, os baluartes do sertão. E contará também com a presença marcante do global Jackson Antunes. Além de Juliana Andrade e Cleiton Torres, grupo de catireiros de Itapevi, Peão Carreiro e Praiano, Otávio Augusto e Gabriel e o grupo Altaneiros.
Muitos decretaram, erroneamente, o fim do homem do campo e de suas tradições. Tolice. O Sentimento Sertanejo, que muitos pensaram que viraria poeira com o asfalto, mostra em Poloni que está mais vivo do que nunca. Pulsa forte, renova-se nas mãos dos jovens que herdam o ponteio dos mais velhos e se consagra na história escrita por Daniel e tantos outros. Dia 6 de junho, o Brasil caipira se encontra ali. E quem for, com certeza, voltará para casa com a alma lavada e o coração batendo no ritmo de um pagode de viola.
Jocelino Soares
Artista plástico – Pós-graduado
Arte-educação. Membro da Academia
Rio-pretense de Letras e Cultura.