A luz que não se apaga
Ali entendi: a morte também pode ser digna. Pode ser bonita. Pode ser vivida com calma, com verdade

“Vocês sabem o que são cuidados paliativos?” Foi assim que a Dra. Raquel Sousa me acolheu naquela sexta-feira à noite, em meio à angústia e ao cansaço. Enquanto meu coração implorava por respostas, essa pergunta chegou como um abraço.
Ela seguiu: “Paliativo não é desistir. É cuidar. É garantir dignidade e conforto.” Naquele momento, a informação foi libertadora. E o peso começou a se dissipar dos meus ombros.
Naquela tarde, ao olhar nos olhos azuis do meu pai — os mesmos que sempre me deram segurança — senti algo diferente. O olhar estava longe, como se ele atravessasse um portal.
No fim do dia, Dra. Raquel chegou. Com calma, examinou, escutou, acolheu. Então, disse o que meu coração já sabia: “Seu pai está em processo ativo de óbito.”
Mesmo preparada, aquela frase me pegou no contrapé.
— O que isso significa, doutora?
— “É como uma velinha… que vai se apagando aos poucos, até o fim.” E completou: “Vamos fazer o possível para que ele esteja confortável. Ele não ficará sozinho.”
E ele não ficou.
Dra. Raquel fez visitas diárias. Informava tudo num grupo de WhatsApp com a família. E, ao lado da enfermeira Vilma, esteve com ele até o último suspiro.
Lembro de ter entrado no quarto e visto uma receita pregada na parede. Ali estavam listados os medicamentos para que ele não sentisse dor. Mas também havia um “remédio” diferente, escrito com a mesma seriedade: música, muito carinho, conversas ao pé do ouvido e presença na sua passagem.
Aquilo me marcou. Era a medicina se encontrando com a humanidade.
Ali entendi: a morte também pode ser digna. Pode ser bonita. Pode ser vivida com calma, com verdade.
Sem medo. Sem angústia. Com presença e segurança.
Antes de sair, ela perguntou:
— Que música ele gosta?
— Roberto Carlos — respondi.
Minutos depois, tocava: “Não adianta nem tentar, me esquecer…”
Naquela hora, o cuidado virou música. A despedida virou memória viva. E pela primeira vez, discordei da doutora: essa vela nunca vai se apagar por completo.
Meu pai vive em mim, no meu irmão, nos netos, em todos que o conheceram. A morte não é o fim. É parte da vida. Um ciclo. Uma travessia. E quando ela é acompanhada com amor, até o adeus vira um sussurro de gratidão.
Obrigada, Dra. Raquel. Obrigada, Vilma.
E obrigada a todos os médicos paliativistas, que merecem respeito e admiração por humanizar o fim da vida com tanta delicadeza.
Bruna Bârbosa
Jornalista, especialista em Neurociência, Psicologia Positiva e Mindfulness. Palestrante, escritora, mentora e aluna especial da Famerp