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ARTIGO

A geração que não consegue assistir a um filme

Estamos nos acostumando a viver em um estado permanente de interrupção

por Miguel Flauzino
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
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Outro dia ouvi uma frase que ficou na minha cabeça: “Tem gente que não consegue mais assistir a um filme inteiro.”

À princípio parece exagero. Afinal, nunca consumimos tanto conteúdo. Passamos horas por dia olhando para telas. Assistimos a vídeos, séries, podcasts, lives, entre outras coisas. Mas existe uma diferença importante entre consumir conteúdo e acompanhar uma história.

Pense em quantas vezes você pegou o celular durante um filme. Ou quantas vezes abriu uma rede social enquanto assistia a uma série. O problema não é apenas a distração. O problema é que estamos nos acostumando a viver em um estado permanente de interrupção.

As redes sociais transformaram a atenção em um campo de batalha. Cada vídeo disputa segundos da nossa concentração. Cada deslizada de dedo entrega uma nova piada, uma nova notícia, uma nova polêmica. O cérebro se acostuma a recompensas rápidas. E quando isso acontece, duas horas de um filme podem parecer uma eternidade. Talvez seja por isso que tanta gente diga que os filmes são lentos. Nem sempre são. Muitas vezes nós é que mudamos.

Grandes histórias exigem paciência. Exigem observar detalhes, entender personagens, acompanhar conflitos e esperar pela recompensa no momento certo. Não é diferente de um livro. Ou de uma conversa profunda. Ou de qualquer coisa que tenha valor real.

Não estou dizendo que a tecnologia é um problema. Muito pelo contrário. Nunca tivemos tanto acesso à informação, ao entretenimento e ao conhecimento. O problema começa quando toda experiência precisa ser rápida, curta e instantaneamente gratificante.

Quando isso acontece, perdemos algo importante: a capacidade de permanecer. Permanecer em uma história; permanecer em uma ideia; permanecer em uma reflexão.

Talvez a maior mudança cultural da nossa geração não seja a chegada da inteligência artificial ou das redes sociais. Talvez seja a dificuldade crescente de prestar atenção. E isso vai muito além do cinema. Porque quem não consegue acompanhar uma história de duas horas dificilmente conseguirá acompanhar um raciocínio complexo, um livro desafiador ou uma conversa que exija profundidade.

No fim das contas, a pergunta não é se as novas gerações assistem menos filmes. A pergunta é: estamos perdendo a capacidade de nos concentrar?

Miguel Flauzino

Jornalista e empresário, com atuação em marketing e vendas. Também produz análises sobre cultura pop e comportamento, com olhar crítico sobre tendências atuais.