Diário da Região

18/02/2004 - 23h34min

Memória de Ugolini

Ugolino Ugolini faleceu em Rio Preto, em 2 de agosto de 1914. Deve ter morrido de tristeza. Hoje está provado que tristeza mata, e motivos para ficar triste não lhe faltaram. Veio para a América em 1889, e consta que trazia no bolso uma carta de recomendação, assinada por Cesare Cantu, dirigida ao imperador D. Pedro 2º. Cantu é um dos maiores historiadores do mundo, é autor de ?Storia Universali?, com 35 volumes (Accácio de Oliveira Santos Junior tem uma coleção dele em sua biblioteca!), e do romance histórico ?Margherita Pusterla?. Cantu nasceu em Como, em 1804, e faleceu em Milão, em 1895. Mas Ugolino não encontrou o imperador. Ele havia sido deposto em 15 de novembro de 1889. Desiludido, Ugolini foi parar na Argentina, mas voltou ao Brasil, chegando em Rio Preto em 1893, integrando a lendária ?Comissão Hummel?, que traçou a Estrada do Taboado. Ugolini residiu em Jaboticabal, Rio Preto e Tanabi. Fez muitos planos, teve grandes idéias, mapeou Rio Preto, Avanhandava e Miguel Calmo e quadriculou Tanabi. Desenhou o moderno cemitério da Ercília, foi professor na Escola Municipal e freqüentou as lojas maçônicas Firmeza a Vautier (fundada em 1897, por Pedro Amaral) e Cosmos (fundada em 1899, por Adolpho Guimarães Corrêa).

Idealizou uma linha de bondes entre Rio Preto e o Salto do Avanhandava e tentou, em 1898, implantar nosso primeiro serviço telefônico. Foi o primeiro estrangeiro a ser eleito vereador rio-pretense, em 1899, e também foi o primeiro vereador a ter o mandato cassado. Por faltas. O mais importante é que Ugolini foi o nosso primeiro ambientalista. Ele combateu ferozmente a pesca predatória nos córregos e rios da região e lutou, com desespero, para impedir a construção do Grupo Escolar (Cardeal Leme) em cima do terreno onde antes funcionou o cemitério da cidade. Ugolini ofereceu à Prefeitura, em doação, uma quadra para a escola, entre as atuais ruas Saldanha Marinho e Independência. A Câmara não quis. Ficava muito longe do centro. A cidade terminava na Marechal Deodoro. A escola foi construída em cima de terreno contaminado. Os primeiros alunos do Cardeal Leme bebiam água de cisterna cavada no velho cemitério. Hoje, o terreno abriga o Fórum. Pouco tempo depois, Ugolini faleceu. Estava doente e triste e, pior, havia levado um tombo financeiro praticado por dois espertalhões. Ele havia vendido todos os seus bens, estava bem de vida e queria voltar para a sua mulher e filha que ficaram em Florença. Acabou pobre, com o enterro pago pelos irmãos de maçonaria.

Se há um século, Ugolini lutou desesperadamente contra a pesca predatória, como será que ele reagiria hoje à poluição que matou todos os nossos córregos e rios? O que será que ele faria para salvar nossos mananciais dessa carga infernal de esgoto? As lutas em favor da natureza são antigas. Sempre houve uma voz dissonante, uma figura que se destacou do rebanho. Temos em Ugolino Ugolini o nosso primeiro exemplo de dedicação e amor às causas ambientais. Temos na sua memória a certeza de que vale a pena lutar, mesmo que a nossa voz não seja ouvida pela maioria. Sabemos de Ugolini e nada sabemos dos predadores. Esses foram tragados pelo tempo e pela história.

LELÉ ARANTES
Autor do Dicionário Rio-pretense e diretor do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Rio Preto

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