Diário da Região

09/08/2015 - 00h00min

Fé e luto eterno

‘Vozes’ dos jovens de Santa Maria

Fé e luto eterno

Guilherme Baffi Ao lado de seu ajudante, Nilton César Stuqui, à direita, psicografa carta
Ao lado de seu ajudante, Nilton César Stuqui, à direita, psicografa carta

‘É preciso quebrar os tabus e apagar de vez essas conversas de morte. Ninguém morre’

A frase acima foi enviada pelos irmãos Pedro Freitas Salla, 17 anos, e Marcelo de Freitas Salla Filho, 20 anos, a seus pais, Marcelo e Márcia, por meio de uma carta psicografada pelo médium Nilton Cesar Stuqui, em Neves Paulista, no dia 29 de julho. Na busca por consolo, alento e principalmente explicações, 54 pais, adeptos da doutrina espírita, deixaram a região de Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul, em um ônibus fretado.

O destino foi a casa espírita Gabriel Martins, em Neves Paulista. Em seguida, visitaram a casa de Chico Xavier, em Uberaba (MG). Uma viagem com mais de 3 mil quilômetros. Pedro e Marcelo, únicos filhos do casal Salla, estão entre as 242 pessoas que morreram no incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, na madrugada de 27 de janeiro de 2013. Pedro entrou na faculdade de agronomia com 16 anos. 

Veja videorreportagem abaixo

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Médium de Neves Paulista psicografa cartas de vítimas da Boate Kiss

Amava trabalhar com o pai, um engenheiro agrônomo, na lavoura da família. Marcelo cursava o quarto ano de direito. Até que um sinalizador durante um show na boate, que funcionava sem alvará do Corpo de Bombeiros, com lotação acima do permitido e apenas uma porta de saída, interrompeu sonhos e deixou dores profundas. Somente Marcelo e Márcia ainda moram em Santa Maria. Os demais pais da caravana residem em cidades vizinhas, em um raio de até 300 quilômetros de distância. A viagem a Neves Paulista durou 30 horas, com 1,4 mil quilômetros (ida).

 

Guilherme Pontes

Stuqui psicografou cartas de 29 jovens. A sessão começou às 18h e terminou pouco depois da meia-noite, sempre com muita lágrima e emoção. A cada frase, a cada lembrança e segredos, choros incontroláveis. Há cartas em que o médium revela detalhes particulares da família e momentos da infância no Rio Grande do Sul (leia mais nesta página). “Lógico que sentimos falta do contato físico, mas aprendemos a lidar com os sentimentos”, conta Marcelo.

O casal não segurou as lágrimas quando recebeu essa mensagem de Pedro. “Lembro quando saíamos de carro e eu adorava abrir o vidro para mexer com os amigos na rua. A alegria era intensa. Tive ao vosso lado tudo que eu precisava para ser muito feliz. Não posso me queixar de nada, sei que logo vamos nos reunir e isso será ainda mais feliz.” São revelações que fortalecem ainda mais a fé e, de certa forma, amenizam a dor do luto. 

“A certeza de que nosso filho está vivo nos afasta dos remédios e da depressão”, disse Mariângela Pontes Gonçalves, mãe de Guilherme 19 anos, vítima do incêndio da boate. Ela, inclusive, foi quem puxou a fila e organizou a primeira caravana, em junho de 2013, para Uberaba e posteriormente para Neves Paulista. O encontro de Stuqui com os pais das vítimas aconteceu em agosto de 2014, quando o médium visitou Passo Fundo (RS) e conheceu Mariângela. Desde então, a convite dos pais, Stuqui passou a visitar Santa Maria.

“Devo lançar até março do ano que vem o livro ‘Gabriel e os Jovens da Nova Caminhada. Eles não querem ser citado como os jovens da boate Kiss”, disse o médium. Outro livro fruto das cartas psicografadas é o “Nossa Nova Caminhada”, já lançado em dezembro do ano passado por seis mães, além da jornalista Lidiana Betega. Na última semana chegou a 12 mil unidades vendidas. Silvia Regina Vendruscolo, mãe de Leonardo, morto aos 18 anos, faz parte das caravanas e diz que as mensagens do filho trouxeram alívio.

Leonardo cursava o primeiro ano de agronomia e, pouco antes do incêndio, havia tirado a carteira de motorista. “O Léo estava feliz, tudo ia bem. A família me via como a forte. Mas, ano passado, sofri uma fragilidade extrema e desenvolvi um quadro de luto atrasado. Procurei ajuda médica e, por oito meses tomei antidepressivo”, disse Silvia. Ela recorreu ao médium após ser convencida pela amiga Adriana, mãe da jovem Daniela Betega Ahmad, outra vítima do incêndio. 

“Eu vi a carta da Dani e senti que a Adriana estava bem, fortalecida. A emoção é incrível. São encontros diretos”, disse Silvia. A professora Viviane Reghelin Berguemaier, mãe de Melissa, outra vítima da Kiss, apresentou coceiras e manchas na pele. Eram efeitos da fragilidade provocada pelo luto “Fiquei esquecida ao ponto de marcar provas e, na data de aplicá-las, não produzir o conteúdo.”

Todos os dias 27 de cada mês, Viviane procurava uma fuga. “Um ano e meio depois da boate (julho de 2014), recebi a primeira notícia concreta da minha filha. A Mariângela (mãe do Guilherme) estava em Uberaba e me trouxe uma carta da Melissa. Foi um bálsamo saber que ela está bem e conversando comigo, sempre carinhosamente.”

 

Melissa Corrêa

Tragédia em boate ainda é uma ferida aberta

Localizada na área central do Rio Grande do Sul, a cidade de Santa Maria atrai estudantes de outros Estados e até de países vizinhos, como Paraguai, Uruguai e Argentina. Na época da tragédia na boate Kiss, dos 260 mil habitantes do município, 30 mil eram alunos da Universidade Federal de Santa Maria. O luto e a revolta persistem pelas ruas até os dias de hoje. Há movimento de pais de vítimas, grupos como ‘Mães de Janeiro’ e ‘Associação de Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria’, que permanentemente armam tendas no centro da cidade.

Diversas irregularidades foram encontradas na boate. Entre elas, não havia alvará do Corpo de Bombeiros. O incêndio começou após o vocalista da banda Gurizada Fandangueira ter utilizado artefato pirotécnico proibido em ambientes fechados. O extintor de incêndio falhou. O público também era superior a capacidade máxima permitida (691 pessoas) e faltava de um plano de prevenção contras incêndio. Dois anos e meio depois, o processo ainda está na fase de produção de provas, superou 11 mil páginas e nenhum indiciado foi punido.

Enquanto uns pedem ‘justiça’, os pais da “Nova Caminhada” entendem que seus filhos cumpriram a missão: os locais passaram a ser fiscalizados. Esse, segundo Adriana, a mãe da jovem Daniela Betega Ahmad, foi o principal legado dos seus filhos para todo o Brasil. “Até mesmo o centro espírita do Nilton precisou construir portas de emergência”, conta Adriana. Todas as mães ouvidas pela reportagem se dizem ‘orientadas’ pelos próprios filhos, através das cartas psicografadas, a não cobrar punição.

“Logo na primeira mensagem, a Dani fez esse pedido, que não se envolve em manifesto e continuasse orando pelos donos da Kiss. Imagina o que essas almas estão sofrendo ao ser responsabilizadas pela morte de 242 pessoas”, revelou Adriana. Essa visão do perdão, no entanto, provoca revolta entre os demais pais, ávidos por punição.

 

Stefani Posser

Cartas revelam ‘segredos’ entre pais e filhos

Pergunte aos pais o impacto da saudade em meio à perda de um filho. Rose Mari Posser Simeoni logo faz lembrar uma canção triste de Chico Buarque (Pedaço de mim), onde ‘a saudade é o revés de um parto. A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu’. Rose, que perdeu o pai ainda jovem, no mesmo dia em que descobriu estar grávida de Stefani, também soube que o marido estava com câncer.

Quando Stefani completou nove anos, Rose perdeu o marido. Num intervalo de cinco meses, a mãe se foi. Stefani, garota linda, dedicada aos estudos, ajudava a mãe Rose a cuidar da tia com problemas mentais, a Mari. Aos 15 anos, Stefani deixou a casa da mãe em Marau, 302 quilômetros por Santa Maria, com o objetivo de estudar na Universidade Federal de Santa Maria.

Passou no vestibular de odontologia. Rose, apesar de todas feridas, nunca perdeu a alegria, e motivava Stefani com a frase “dizia a ela, assim: Levanta a cabeça, guria. A vida é boa!”. Porém, toda essa fortaleza veio abaixo quando perdeu “sua princesa”. “Seria difícil encontrar essa luz que me conduz hoje para algum lugar. Logo confiei quando o Nilton, mesmo sem conhecer a Stefani, nos impressionou com detalhes. Numa das cartas desenhou flores, que amávamos, lembrou da frase 'levanta a cabeça, guria. A vida é boa!'.”

O médium Nilton César Stuqui, de Neves Paulista, psicografou três cartas de Stefani. Na primeira, em agosto do ano passado, descreve: “Tudo o que vivemos em casa mãe, as brincadeiras, os desfiles de moda, as alegrias e gargalhadas, os vídeos feitos...” Rose comprova que Stefani fazia vídeos e desfiles para alegrar a tia Mari. A riqueza de detalhes fez os pais acreditarem ainda mais nas cartas.

“Só mesmo,minha filha para escrever essas coisas e carinhosamente.” Outra carta psicografada por Stuqui, em Neves Paulista, Guilherme faz menção à criação de cavalos dos pai Ricardo Machado Gonçalves. “Desde pequeno o Guilherme sempre foi ligado aos cavalos, gostava de dar os nomes e sair de boina”, garante a mãe Mariângela.

 

 



Carta de Daniela Betega Ahmad

"Meus queridos familiares e amigos, minha mãe Adriana, meu pai querido Assan, minhas irmãs Gabriela , Paloma, querida tia Lidiana, que a luz de Jesus abençoe a todos. São muitas mentes a lhes escrever e falar do nosso retorno, eu vejo isso com a maior naturalidade, pois fora da matéria que ofusca os olhos, eu vejo tudo por outro ângulo. Confesso que me surpreendo sim, eu não imaginava que nosso compromisso era tão ajustado com a vontade de Jesus nosso mestre, e hoje vejo que é assim. O retorno que marcou nosso Rio Grande é da lei do Senhor e nós emissários de suas bênçãos que temos tarefas adiante para efetuar e devagar sanar as dores que assaltam tantos corações. A idéia do livro (Nossa nova caminhada, escrita pela jornalista e sua tia Lidiana Betega) é maravilhosa, e não acabou, temos muito mais para fazer, cada um contribui como pode, ver pais mais calmos e alegres me garante a certeza de que estou no lugar certo".

 

 

 

 

Pedro e Marcelo Salla Clique na imagem para ampliar

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Leonardo Vendruscolo Clique na imagem para ampliar

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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