Torcedores relembram conquista histórica da Copa do Mundo de 1970

QUANDO FOMOS REIS

Torcedores relembram conquista histórica da Copa do Mundo de 1970

Era o terceiro título mundial Brasileiro em 12 anos e o Brasil passava a ser, então, o maior vencedor da Copa do Mundo


Motorista Hercules Gorla tem três álbuns 
relativos ao mundial 
do tricampeonato
Motorista Hercules Gorla tem três álbuns relativos ao mundial do tricampeonato - Guilherme Baffi 20/6/2020

No dia 21 de junho de 1970, um chute cruzado de Carlos Alberto Torres estufava a rede do goleiro Albertosi. O gol, que coroou uma das maiores jogadas coletivas da história do futebol, servia como fagulha para disparar uma festa sem precedentes. Era o terceiro título mundial Brasileiro em 12 anos e o Brasil passava a ser, então, o maior vencedor da Copa do Mundo. A imagem do gol, facilmente encontradas na internet, hoje, ainda está na retina dos rio-pretenses que viveram aquele dia.

A festa tomou conta das ruas em todo o País e com novas cores. Afinal, aquela Copa do Mundo foi a primeira transmitida em cores para o Brasil, ainda que de maneira limitada. Os gols ganharam tons mais vibrantes da camisa amarela, um marco profundo para a geração que viveu aquele período. "Em 50 a gente não ouvia direito pelo rádio, era uma chiadeira só. Em 58, já tinha a audiência do rádio mais limpo, mas em 70 já foi transmitido, foi uma festa maior, principalmente pelo futebol jogado", afirma o comentarista Edward Villa, que conta com acervo de revistas e jornais da época.

Circunstância parecida com a de muitas famílias no interior paulista, que ainda vinha a TV engatinhar. Caso do jornalista Mário Soler, que, no auge da adolescência, teve o primeiro contato com a TV. "Foi muito especial para mim, porque tinha de 14 pra 15 anos e assisti na TV do vizinho. Ele cercou a casa dele com encerado, e fez como se fosse um pequeno cinema, colocando a TV na porta, do lado de fora", afirma.

Outra febre dos jovens e que perdura até hoje são os álbuns de figurinhas. Naquela época, o jeito mais fácil de se conhecer todos os jogadores que desfilariam futebol nos campos mexicanos, em um período em que a TV ainda engatinhava e a internet ainda não passava de um embrião. O motorista Hercules Gorla. Têm três álbuns relativos ao mundial do Tri, sem contar o de outras copas do mundo. "É paixão", define.

Criado em Catanduva, estudava em um seminário e precisou, literalmente, torcer lado a lado com o "inimigo". "Estudávamos em um colégio que só tinha padres italianos. Compraram uma TV colorida e a gente era liberado para ver os jogos do Brasil. Tínhamos que torcer calados, mas não teve jeito, depois do jogo, foi uma festa só", conta, entre risos.

O marco do tricampeonato vive até hoje. A equipe comandada por Zagallo venceu os seis jogos contra Tchecoslováquia, Inglaterra, Romênia, Peru, Uruguai e Itália, além dos seis jogos das eliminatórias daquele mundial, feito até hoje nunca igualado. O escrete formado por Félix, Carlos Alberto, Brito, Piazza, Everaldo, Clodoaldo, Gérson, Jairzinho, Rivellino, Pelé e Tostão tornou-se sinônimo de futebol vistoso e vitórias e que garantiu a vinda definitiva da Taça Jules Rimet para o Brasil, desaparecida anos depois em circunstâncias nunca esclarecidas.

"Enquanto time, nunca teve um igual", sintetiza Hercules, que, assim como milhões de brasileiros, guardam as memórias daquele time em lugar especial: o coração.

Os especialistas apontam a Seleção Brasileira de 70, que conquistou o tricampeonato mundial no México, como a melhor seleção de todos os tempos. E não faltam motivos para esse status daquele time mágico. Um dos maiores é que o técnico Mário Jorge Lobo Zagallo conseguiu escalar 5 "camisas 10" no mesmo ataque: Jairzinho, Gérson, Tostão, Pelé e Rivellino. E como segurar as pontas desse ataque genial, com tanta gente habilidosa, mas que não tinha vocação para a marcação.

A resposta tem nome e sobrenome: Clodoaldo Tavares Santana, um jovem de 20 anos que assumiu a condição de titular quanto Zagallo substituiu João Saldanha, no comando do time brasileiro. Clodoaldo teve uma ótima escola, como garantiu o saudoso capitão Carlos Alberto Torres, em entrevista na casa dele na Barra da Tijuca em 2013.

"Clodoaldo foi preparado no Santos para substituir o grande Zito. E as nossas excursões pelo mundo nos deram muita bagagem e experiência para qualquer desafio. Quando ele virou titular depois das eliminatórias já estava pronto".

Clodoaldo marcava como ninguém. Cobria as descidas do capitão Carlos Alberto e ainda partida para o ataque. Revendo as partidas de 70, por várias vezes, Corró, como é conhecido até hoje, apareceu na área adversária tentando o gol. E ele conseguiu na difícil semifinal contra o Uruguai. O craque Gérson estava muito marcado e preferiu recuar dando espaço para o avanço de Clodoaldo. A sugestão de Gérson foi feita para o capitão Carlos Alberto, que na hora chamou o camisa 5 da seleção.

O jogo estava 1 a 0 para os uruguaios, Clodoaldo começou a jogada na intermediária do nosso ataque, tocou para Tostão que passou a bola na medida para Corró empatar. "Imagino eu que estava acostumado a comemorar com aqueles craques que marcavam tantos gols, de repente, eu vi Jairzinho, Gérson, Tostão, Pelé e Rivellino me abraçando".

O meia Gérson não se cansa de elogiar Clodoaldo. "Ele chegou menino na Seleção, mas foi mostrando uma personalidade. Eu já sabia que era um grande jogador no Santos, mas o talento dele explodiu naquela Copa. Tinha que ser naquela seleção".

Pelé também reconhece. "Ele foi reserva nas eliminatórias, mas treinou muito, foi crescendo e mereceu ganhar a camisa 5".

E no jogo final Clodoaldo decidiu se despedir de forma triunfal. A partida já estava no final quando ele começa a driblar os italianos. Sai da marcação de 5 para iniciar o lance do quarto gol brasileiro. O meia Gérson, o Canhotinha de ouro, que estava do lado de Corró falou. "Todos ficaram olhando e pensando. O que ele vai fazer. Foi driblando um a um dos marcadores e nós só observando. Ele fez uma jogada brilhante e nós só poderíamos aplaudir", afirmou Júnior, lateral-esquerdo da mítica seleção de 82.

Um menino de 20 anos que só queria saber de jogar bola. E como jogava o Clodoaldo. Obrigado, Corró.

(Colaboração Eduardo Silva/ Santos)