Atletas de Rio Preto se preparam para maratonas virtuais

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Atletas de Rio Preto se preparam para maratonas virtuais

Provas virtuais amenizam a saudade das corridas de rua suspensas em todo mundo pela pandemia. Em Rio Preto, equipes fazem desafios internos e terão tradicional prova Seven no formato virtual


Francisco Apoloni treina na quadra de seu condomínio para Maratona de Boston na versão online
Francisco Apoloni treina na quadra de seu condomínio para Maratona de Boston na versão online - Arquivo pessoal

O cenário de pandemia pelo novo coronavírus, prestes a completar cinco meses, mudou comportamentos e rotinas. O mundo dos esportes sofreu um duro golpe sem poder realizar seus "espetáculos". Mesmo com algumas modalidades retomando seus campeonatos - futebol, MMA, automobilismo e basquete - sem a presença de público, uma em especial precisou se reinventar. Como promover uma corrida de rua sem gerar aglomeração? A saída foi fazer provas com participação remota, adotando plataformas online para registro de tempos e percursos, com o corredor recebendo posteriormente em sua casa a medalha de conclusão e seu ranqueamento.

Corridas de renome internacional, como a Ultramaratona Comrades, tradicionalmente realizada na África do Sul desde 1921, e a Maratona Internacional de Boston, nos Estados Unidos, aderiram à nova mania. No Brasil são inúmeras provas, como a Santos Run, que ganhou sua versão virtual e pode ser feita até 30 de dezembro oferecendo três kits de participação.

Em Rio Preto, a 15ª edição da Corrida Seven, válida como 2ª etapa da Alcer Cup - Troféu Adalberto Garcia, será no formato virtual. A Associação de Lazer, Cultural e Esportiva Riopretense (Alcer) previa cinco provas na cidade em 2020, mas teve de mudar seus planos depois da primeira prova - Loufran Running - que reuniu 850 corredores.

"Antes de lançar a gente conversou muito com as assessorias se teria apoio deles. O feedback foi muito bom até para quem estava parado, que começou a se movimentar", disse o organizador das provas Fernando Furlan. "Com essa iniciativa o pessoal tende a voltar ao campeonato. Teremos um comitê de avaliação dos tempos, com três pessoas, a entrega dos kits será no Riopreto Shopping por drive thru, com camiseta, medalha e número de peito". Os inscritos poderão registrar suas corridas de 5 ou 10 quilômetros pelo aplicativo Strava no período de 21 a 30 de agosto. O percurso é livre.

As outras etapas da Alcer Cup sofreram alterações de datas e a torcida é para que a prova com data e hora marcada possa voltar a acontecer até o mês de dezembro. A Meia Maratona Açaí da Praia, que seria em agosto foi transferida para janeiro de 2021, a Corrida da Unesp, de outubro está sendo reprogramada para dezembro, e a 12ª Corrida Damha, de dezembro, vai passar para fevereiro de 2021.

A Federação Paulista de Atletismo (FPA) estuda um protocolo para que as provas possam voltar a acontecer ainda neste ano, com olhar especial a São Silvestre, que no último dia do ano prevê sua 96ª edição. Entre os pontos discutidos está a redução no número de participantes a um terço, fazer apenas provas mais curtas, menores que maratonas (42 quilômetros), medidas de distanciamento na largada e na entrega de medalhas, medição de temperatura nos participantes, higienização na largada percurso e chegada, uso de máscara, hidratações e sem cerimônias de premiação. A FPA também pretende vetar a participação de maiores de 60 anos e pessoas com comorbidades.

Dentro das assessorias de corrida, outra mania para animar a galera é a criação de desafios com distâncias a serem cumpridas pelos alunos dentro de seus níveis de rendimento. Aplicativos de corrida também oferecem desafios semelhantes para promover competitividade.

Quem acompanha o Diário da Região conheceu recentemente a história e o drama do corredor rio-pretense Francisco Apoloni, 65 anos. Ele estava inscrito, com passagens aéreas compras e reservas de hospedagem feitas nos Estados Unidos, visando a Maratona de Boston, mas o evento que seria em 20 de abril foi adiado e posteriormente teve sua versão presencial cancelada em maio. Na última semana, veio a notícia da realização da prova de forma remota.

Ao preço de 50 dólares (cerca de R$ 265) a inscrição, poderão participar os corredores que haviam obtido índice para prova presencial. "A gente vai poder correr aqui entre 7 e 14 de setembro e vai ter a plataforma oficial pra fazer uploud do tempo. Ao invés de correr em Boston, cada um no seu país", disse Apoloni.

Inscrito na prova, ele enfrenta agora os espinhos da preparação. Para não sair de casa, por ser do grupo de risco, treina em uma quadra poliesportiva. "Tem de tomar cuidado com tornozelo, joelho. Corro dois quilômetros para um lado e dois para outro, para ficar dolorido igual", disse Apoloni.

Seu treino para cumprir a maratona de 42 quilômetros começou em meados de maio e, pelo fato da quadra ter apenas 50 metros lineares, chegou a dar 500 voltas no percurso. "Minha equipe é de Rio Claro, já faço treino remoto. Tô fazendo a rodagem progressiva sem se preocupar com pace, tempo. Treino de terça, quinta e sábado", contou Francisco. "Cheguei no máximo de 24 quilômetros na quadra, 508 voltas.

Ele conseguiu o índice para prova completando a Maratona de Chicago em 2019 em 3h59min20s e a de Zurique, na Alemanha, em 3h59min39s. A marca estabelecida pela organização era de 4h05min. "Expectativa é enorme, estou feliz, é uma prova desejada pelos maratonistas e vou completar a Maratona de Boston em Rio Preto", finalizou. (OJ)

Nessa onda de provas virtuais, o empresário Marcel Cunha, 50 anos, participou recentemente da Race the Comrades Legends, versão virtual da ultramaratona de 90 quilômetros entre as cidades de Pietermartizburg e Durban. Ele fez a prova de 10 quilômetros. "Tive conhecimento ano passado da prova, tenho o sonho de fazer duas ultras, além da Comrades a Bertioga Maresias, mas tem a questão de preparação. Ia fazer minha primeira maratona nesse ano, gosto dos off roads, corri em Campos do Jordão, Ilhabela, mas para fazer os 90 quilômetros a preparação é longa", conta.

Com a pandemia, se viu impossibilitado de ir para Comrades, que adotou o formato virtual nas distâncias 5, 10, 21, 45 e 90 quilômetros. "Como estava sem preparação, fiz a Meia Maratona de São Paulo e dei uma parada. Quando chegou a pandemia, fiz só os 10."

A experiência de completar a prova virtual, no dia 14 de junho, compensou a ausência de uma prova com aglomeração, mas trouxe estranheza. "Espero que não seja o novo normal, curto desafios, ter a medalhas. O clima da prova é muito bacana. Ter aquele colega que está correndo na frente e você pensa, não posso perder. Sozinho é difícil, pois com qualquer dificuldade você pede arrego", disse Cunha.

Ele completou sua prova saindo na estrada de terra da Matinha. "Tinha as 24 horas do dia 14 pra fazer e encaminhar pela plataforma deles, em seguida veio a confirmação. A medalha deve demorar uns 60 dias para chegar", conta ele, que recebeu por e-mail e imprimiu o número de peito da prova. "Imprime, plastifiquei e sai correndo, os caras pensavam: o que esse louco está fazendo."

Marcel é da equipe CH Runnes e já pensa em entrar em outras provas virtuais para não ficar parado. "Desde 2011 eu corro, fiquei uns três anos parado, mas conheci a equipe e teve um ano que cheguei a fazer 15 provas", finalizou o empresário, que já correu provas na Patagônia Argentina e em Lisboa, Portugal. (OJ)