Os motivos que levam o rio-pretense a empreender

EMPREENDEDORISMO

Os motivos que levam o rio-pretense a empreender

Falta de reconhecimento no ambiente de trabalho e desejo de ter negócio próprio são alguns dos combustíveis que motivam rio-pretenses a tirar grandes sonhos do papel e transformar em empresas


Flávio Barbosa da Silva decidiu ter um negócio próprio quando perdeu uma prova na faculdade porque teve que fazer hora extra
Flávio Barbosa da Silva decidiu ter um negócio próprio quando perdeu uma prova na faculdade porque teve que fazer hora extra - Guilherme Baffi 8/10/2020

Quando tinha 18 anos, Flávio trabalhava na oficina de uma concessionária na cidade de Uchoa e ouviu do chefe que teria de fazer hora extra mesmo após argumentar que não podia perder aula na faculdade, já que estava na semana de provas. Durante 33 anos, Valmir trabalhou na parte administrativa de uma das empresas mais conceituadas de Rio Preto e, apesar dos anos de dedicação, não conseguiu ter a promoção que almejava.

A semelhança nessas duas histórias é a frustração provocada pela experiência profissional não tão bem sucedida como empregado em uma empresa, sentimento que serviu de combustível para que eles partissem em busca de algo diferente e desafiador: o empreendedorismo.

A partir do dia em que foi impedido de fazer a prova na faculdade, Flávio Barbosa da Silva, 27 anos, decidiu que queria trabalhar para si mesmo. Só ainda não sabia no que, exatamente. A falta de reconhecimento pelo esforço no emprego fez crescer no coração de Valmir Ciciliato, 55 anos, a vontade de construir algo próprio, mas o ramo também ainda estava indefinido.

E eles representam uma parcela significativa da população rio-pretense. Ao todo, são 76,4 mil pessoas jurídicas na cidade. De acordo com a Junta Comercial do Estado de São Paulo (Jucesp), entre os meses de janeiro e agosto deste ano pelo menos 2,9 mil empresas foram formalizadas.

Para a gerente regional do Sebrae Rio Preto, Iroá Arantes, ter a área bem definida, entender o mercado e se preparar são fatores que fazem diferença no sucesso do projeto. Ela reforça que pesquisas na área dividem o empreendedorismo em duas categorias: a de oportunidade e a de necessidade. "A pessoa que vislumbrou uma oportunidade tem uma chance muito maior de fazer o negócio dar certo em relação à pessoa que não teve escolha e optou por empreender como única fonte de renda", destaca.

Em busca do sonho

"Eu sou a prova de que nunca é tarde. Fui começar a realizar meus sonhos depois dos 50 anos", conta Valmir, que abriu a Ciciliato Pizzaria em 2018. Ele reflete que a vontade de montar um negócio próprio era bastante antiga, mas a segurança de trabalhar por décadas em uma empresa renomada fez com que ele protelasse a ideia.

Somente após a aposentadoria foi que ele decidiu ir atrás do que realmente gostava e que pudesse proporcionar a sensação e realização pessoal e profissional. "Quando você é funcionário, por mais que se esforce, é preciso de ajuda para subir profissionalmente. É preciso que alguém te abra a porta. Quando se é empreendedor, o crescimento depende só de você", diz.

"Hoje, eu me sinto arrepiado toda vez que fico na frente do meu salão", comenta Flávio. O estalo que ele precisava para descobrir o que queria fazer não foi nada sútil. Depois de um dia de trabalho na oficina, Flávio foi até uma barbearia em busca de um corte de cabelo. Após esperar chegar a vez de ser atendido, ele ouviu do barbeiro que não seria atendido pois estava muito sujo. "Lá, tinha mais gente nessa mesma situação que eu, que tinham acabado de sair do trabalho. Foi então que eu tive a ideia de montar uma barbearia com um espaço bacana para atender todo tipo de público. Atender pessoas que merecem um serviço de qualidade e serem tratadas como iguais", recorda.

Mas não foi da noite para o dia. Como precisava pagar a mensalidade da faculdade de recursos humanos, ele continuou trabalhando na concessionária por mais um tempo. Depois, ainda trabalhou como frentista. O dinheiro que sobrava era investido em equipamentos amadores. "No começo, improvisei um espaço na casa da minha mãe com apenas uma cadeira e cortava o cabelo dos meus irmãos e amigos nos dias de folga para pegar confiança".

Depois da ideia

Não basta apenas ter uma ideia e boa vontade, é preciso ver o quanto esse negócio é inovador, reforça Iroá. "Muitas vezes a gente se dispõe a produzir um produto ou serviço de forma tradicional sem evoluir e acompanhar o mercado. É importante olhar e ver se existem novas tecnologias e novas formas de produzir", pontua.  

Quando decidiu produzir profissionalmente, Valmir buscou por capacitação na área e adaptou a garagem de casa para iniciar a produção. Em um dos cursos, ele foi apresentado à receita de massa que está sendo aperfeiçoada há 20 anos e decidiu investir. No início, trabalhava sozinho e, como ninguém ainda o conhecia, começou a oferecer para vizinhos. "Vendia uma pizza por dia, até que um vizinho foi indicando para outro. Agora, chego a produzir 200 pizzas na semana".

Com o aumento na produção, até a família foi incluída no processo e ainda foi necessário contratar dois funcionários freelancers. A ideia é aumentar a produção e, no futuro, transformar o negócio em uma franquia. Para isso, Valmir já está ajustando o processo criativo e desenvolvendo insumos que possam ser congelados, mantendo a mesma qualidade. "Nesse negócio, não quero ganhar dinheiro pela quantidade e sim pela qualidade. A intenção é competir com as melhores pizzarias de Rio Preto". O próximo passo é aperfeiçoar o sistema de delivery.

Há dois anos, quando teve confiança de que já estava preparado, Flávio decidiu montar um salão de barbearia em Rio Preto que seguisse o conceito que ele havia idealizado sete anos atrás. Assim, surgiu o salão El Cartel. "Montei um salão com uma cadeira só e senti que consegui impressionar o público com as minhas ideias e noções de corte e visagismo", reforça. O negócio começou a render frutos. 

Durante a pandemia, o empreendedor usou o período sem receber clientes para aumentar o espaço e criar uma estrutura maior. Agora, a barbearia temática é composta por cinco cadeiras e ainda possui um espaço de convivência. "Me sinto realizado, mas não estou satisfeito ainda. Estou investindo em cursos e capacitação, quero montar filiais em diferentes áreas da cidade e ainda um espaço unissex", comenta.

A pandemia do coronavírus motivou um número grande de pessoas que partiram em busca do negócio próprio. A atual crise, no entanto, não é a única razão para essa migração, afirma a gerente regional do Sebrae Rio Preto, Iroá Arantes. "É uma junção de vários fatores. Isso também é um reflexo do que já vinha acontecendo por conta da mudança nas leis trabalhistas, com relação à tomada de decisão de algumas empresas".

A migração do trabalho registrado em carteira para a modalidade jurídica já era uma tendência e deve permanecer nos próximos anos, avalia Iroá. "Atualmente, as empresas estão querendo contratar prestadores de serviços e, assim, substituir pessoas contratadas diretamente. Além disso, as novas tecnologias estão propiciando carreiras mais curtas", diz.

Diante disso, a tendência no futuro é um número menor de empregos com carteira assinada e mais pessoas partindo para o empreendedorismo, que passará a assumir uma importância cada vez maior na economia de forma geral. 

"Hoje, está muito mais fácil empreender. Temos ferramentas atualizadas para que a gente possa testar o modelo de negócio", reforça.

Empreendedorismo é um comportamento que pode ser aprendido, reforça Iroá. "Para isso, existem ferramentas comportamentais que vão mostrar quais as atitudes a pessoa deve tomar até ferramentas de gestão que elas precisam aprender", completa. (FN)