Lojas de material de construção sofrem com desabastecimento em Rio Preto

CONSTRUÇÃO CIVIL

Lojas de material de construção sofrem com desabastecimento em Rio Preto

Ao mesmo tempo, consumidor enfrenta alta de preços de boa parte dos produtos


Gabriel Roberto da Silva diz que já há queda nas vendas por aumento de preços e dificuldade em conseguir produtos
Gabriel Roberto da Silva diz que já há queda nas vendas por aumento de preços e dificuldade em conseguir produtos - Johnny Torres 28/9/2020

Um dos poucos segmentos que cresceu após o início da pandemia do coronavírus, o setor da construção civil agora enfrenta um efeito inverso. Puxado por um aumento generalizado nos preços e pela escassez de diversos produtos no mercado, lojas de materiais de construção já apresentam recuo nas vendas.

Gabriel Roberto da Silva, proprietário da Planalto Materiais para Construção, diz ter registrado uma queda de 18% nas vendas ao comparar o cenário atual com os últimos três meses, quando o setor ficou aquecido devido ao aumento na procura de clientes interessados em pequenas reformas.

Segundo o empresário, a queda nas vedas está sendo provocada pelo aumento no preço e pela dificuldade em conseguir o produto, já que as fábricas não estão tendo capacidade de produção para atender ao volume de pedidos. "Estamos tendo uma dificuldade para conseguir material de forma geral. Hoje, se fazemos um pedido de R$ 10 mil em produtos, chega apenas R$ 3 mil", conta.

O tijolo oito furo, produzido à base de barro, é um dos itens que está mais em falta. A revendedora está recebendo apenas 30% do volume que recebia em média. "Não temos estoque nenhum e está sendo muito difícil de encontrar. O que vem não supre o mercado. Isso nos preocupa porque vai chegar uma hora em que a gente vai estar com as portas abertas para atender o cliente e não vamos ter o produto para entregar", comenta.

"Se o cliente entra na loja hoje procurando por tijolo não podemos nem anotar o pedido, porque não dá para saber quando vai chegar e nem qual será a quantidade", explica o gerente da Silva e Silva, Reinaldo Monteiro. No estabelecimento, os vendedores estão sendo orientados a anotar o telefone do cliente e ligar somente quando o material chegar.

E, seguindo a lógica do mercado da oferta e demanda, quando a procura é maior do que a quantidade disponível, o preço dispara e supera a inflação do período. O tijolo, por exemplo, sofreu um reajuste de 50%. O cimento ficou, em média, 40% mais caro. O cobre, produto importado, teve um aumento de R$ 100% no preço.

"Em uma construção que você gastaria R$ 100 mil, hoje você precisaria gastar R$ 140 mil", afirma Milton de Carvalho, presidente da Associação dos Comerciantes de Material de Construção de Rio Preto e Região (Acomac), dono da Hidraurio. Ele ainda reforça que está sendo necessário achatar a margem de lucro para que o preço não fique desequilibrado e afaste os clientes.

Mas não é apenas o tijolo que está em falta no mercado. Também estão escassos materiais elétricos, hidráulicos, de revestimento, cimento, entre outros. Algumas lojas não estão sofrendo com a falta de produtos nas prateleiras, mas estão tendo que aguardar um tempo maior entre uma entrega e outra.

"Antigamente, recebíamos as encomendas em coisa de uma semana. Hoje, temos que fazer o pedido com até um mês de antecedência. Toda a indústria está aumentando o prazo da entrega", afirma Mariana Cavalari, proprietária da Rioprefer.

A estratégia para não correr o risco de sofrer um desabastecimento, está sendo arriscar e trabalhar com um estoque maior. "Antes, tínhamos um estoque mais rotativo. Mas como sei que se pedir hoje não vai chegar amanhã, estamos encomendando quantidades maiores", reforça.

Mas em alguns casos, não adianta nem tentar se adiantar. De acordo com o empresário Marco Napolitano, dono da Eter-Rio, algumas indústrias estão se recusando a aceitar os pedidos por conta da incerteza se conseguirão enviar a encomenda. "Há pouco mais de um mês estamos tendo problemas com prazo de entrega. Antes era de imediato, agora é em torno de 30 dias. Mas tem produto que eles nem dão prazo de entrega. Por isso, fica até difícil dar alguma previsão para o cliente", lamenta.

O aumento no preço e a incerteza se vai ter o produto disponível já têm afetado quem trabalha diretamente no planejamento da construção. De acordo com o engenheiro civil e construtor Tiago Magnoler, está sendo necessário rever o cronograma das obras e refazer todo o gerenciamento de custo. "Até agora, não precisamos parar nenhuma obra, mas nosso cronograma de antes já precisou ser alterado. Estamos tendo muita dificuldade em encontrar os materiais. Tijolo e ferragens, por exemplo, temos que pedir com bastante antecedência", comenta.

Milton de Carvalho, presidente da Acomac, aponta três fatores que explicam a falta dos produtos nas prateleiras: o maior número de pessoas que decidiram fazer pequenas reformas durante a pandemia; a migração de investidores que saíram do mercado financeiro e passaram a investir no setor imobiliário e a diminuição dos juros para financiamento imobiliário.

"Com esses três fatores, o mercado de material de construção reaqueceu. Ficamos cinco anos com o mercado estagnado e ele começou a acelerar. Houve um aquecimento quase que instantâneo, mas as indústrias não estavam preparadas".

Carvalho destaca que, tanto os empresários, quanto a indústria, imaginavam um cenário diferente nos primeiros dias de pandemia. Mas ao contrário do que era esperado, o setor não parou. "Com um aumento na demanda, houve um desabastecimento. E, com a demanda maior do que a oferta, os preços começaram a subir".

A expectativa de Milton é de que o mercado volte a se acomodar nos próximos meses, o que representaria um recuo no preço dos materiais e uma maior quantidade de produtos na prateleira."As pessoas irão pensar duas vezes antes de iniciarem uma obra e isso vai fazer as vendas caírem. Acredito que os preços irão se acomodar antes de chegar 2021, mas não vão voltar no mesmo patamar que eram". (FN)