Pandemia aumenta inadimplência nas escolas de Rio Preto

CRISE

Pandemia aumenta inadimplência nas escolas de Rio Preto

Rede privada de ensino de Rio Preto amarga altos índices de inadimplência, evasão escolar nas séries iniciais e demissão de funcionários e professores; escolas de ensino infantil são as que mais sofrem


Anna Carolina, do Infantário dos Sonhos: muita preocupação com a empresa, funcionários e alunos
Anna Carolina, do Infantário dos Sonhos: muita preocupação com a empresa, funcionários e alunos - Guilherme Baffi 4/9/2020

Inadimplência em alta, evasão de alunos e demissão de professores e funcionários. Essas foram as principais consequências da crise financeira provocada pela pandemia do coronavírus nas escolas particulares de Rio Preto. E, o que se sabia apenas de maneira empírica, agora foi confirmado em números.

O Núcleo das Escolas Particulares (NEP), da Associação Comercial e Empresarial de Rio Preto (Acirp), fez uma pesquisa que revela que o índice de inadimplência aumentou 16 pontos percentuais entre os meses de março e agosto deste ano. No mês passado, entre as 33 unidades escolares que responderam ao levantamento realizado pelo Núcleo, o que se observou foi que o índice de inadimplência passou de 9,4% em março para 25,7% em agosto, o que corresponde ao aumento de 16,4 pontos percentuais.

Em relação à evasão escolar, o índice médio registrado foi de 29,1%, enquanto as demissões de professores ficaram na ordem de 6,8% e a de funcionários e auxiliares, em 30%. "Os números da pesquisa são uma média entre todas as respostas que obtivemos entre os participantes, explica Cristiane Lobanco, representante do NEP, que reúne quase 40 escolas de Rio Preto.

Ou seja, houve escolas que acabaram tendo que fechar as portas porque perderam seus 50 alunos e outras em que o encerramento do contrato de dois deles acabou não interferindo no conjunto total, por exemplo. Entretanto, de modo geral, as escolas que mais têm sofrido com a pandemia são as de educação infantil - na idade em que ainda não é obrigatória a permanência das crianças - até os cinco anos. "Nesse caso, como não há obrigatoriedade, as crianças acabaram nem indo para outras escolas, os pais optaram para que ficassem em casa."

A pesquisa do NEP contou com a participação de escolas de educação infantil; educação infantil e ensino fundamental; educação infantil, ensino fundamental e médio; educação infantil, ensino fundamental, médio e curso livre; ensino fundamental e médio; ensino médio e apenas de cursos livres. Ao todo, Rio Preto tem cerca de 90 escolas particulares e aproximadamente 53,4 mil estudantes na rede privada de ensino.

Dados da Junta Comercial mostram que, até junho, em Rio Preto, 19 unidades escolares encerraram as atividades. Entretanto, esse número é pouco menor do que em igual período do ano passado, quando 21 estabelecimentos de ensino fecharam as portas. "Observamos em que nos outros níveis os estudantes foram para escolas mais baratas ou para a pública. A pandemia se estendeu demais e ficou difícil", afirmou Cristiane.

Inadimplência

Dados do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo (Sieeep) corroboram a pesquisa do NEP. Rio Preto é a segunda diretoria no Estado no ranking de inadimplência entre 14 localidades. Em julho, último número disponível, o índice de inadimplência ficou em 24%, atrás apenas de Presidente Prudente, que fechou com 26,9%. Rio Preto também ficou com resultado acima da média estadual no mês (19,24%).

Desde que a pandemia começou, em março, o índice de inadimplência nas escolas explodiu. Para se ter uma ideia, começou em 4,67% em janeiro; subiu para 13,59% em março, e atingiu o pico em junho, com 28,11%. No ano passado, em junho, o índice havia sido de 5,13% e, em julho, de 6,76%.

Segundo a diretora regional do Sieeesp em Rio Preto, Cenira Lujan, trata-se de um índice extremamente alto. "Ninguém faz cálculos de planilhas de custo pensando em índice de inadimplência de 30%. O impacto é enorme, especialmente na educação infantil, com a perda de alunos", reforça os comentários de Cristiane.

Além da inadimplência, nessa matemática negativa, Cenira afirma que as escolas acabaram perdendo outras receitas, como por exemplo, festividades, cursos extras que ofereciam, período integral, o que colabora para complicar ainda mais a situação dos estabelecimentos.

Retomada

Nesse sentido, não há clima para se pensar em reajustes de mensalidade, que, em algumas escolas começam a ser anunciados já no mês de setembro ou outubro. "Além da perda de receita, houve muitos investimentos nas plataformas digitais e nas capacitações dos profissionais para as aulas remotas e em todos os protocolos de higiene que estão sendo feitos para o retorno às atividades", complementou Cristiane.

A expectativa agora ganha contornos mais otimistas já que Rio Preto acaba de mudar de fase no Plano São Paulo, indo para a fase amarela, o que diminui as restrições para boa parte do comércio, e é condição para o retorno das atividades nas instituições de ensino no próximo mês. O governo estadual deu aval para que municípios há 28 dias na fase amarela reabram colégios públicos e particulares em setembro para atividades de reforço escolar e esse movimento deve começar em cerca de cem municípios a partir de hoje.

Cenira destaca que o cenário para o segmento da educação está bastante complexo em termos financeiros, sem contar toda a preocupação com o aspecto psicológico das crianças e com seu aprendizado, há tanto tempo longe da escola e estudando de maneira remota. "Não está fácil. Para quem é mãe, que precisa lidar com o trabalho, com a casa, administrar a educação dos filhos. A escola tem esse papel de acolher. A educação é responsável pela formação como ser humano", disse.

"A escola tinha 96 alunos; hoje são 46. Ainda tenho sorte, pois muitas perderam todo o infantil e outras que só tinham o infantil ficaram com poucos alunos, só os do ensino obrigatório, de cinco e seis anos". A frase é da educadora e empresária Anna Carolina Massi Vilela, do Infantário dos Sonhos, em Rio Preto, e traz um resumo dos desafios que o setor vem enfrentando. Ela não integra o NEP, mas vive os mesmos problemas das demais unidades escolares.

Nessa conta que só tem números negativos, entram cinco contratos suspensos com os funcionários terceirizados e nove demissões entre os 23 colaboradores da escola. "Pensei em desistir, em fechar a escola. Foram muitas angústias, dores de estômago, insegurança, choro, desespero mesmo. Mas, continuamos o caminho por nossos amados pequenos".

Para dar conta de todas as despesas, Anna recorreu a tudo o que era possível. Inicialmente, deu férias a todos os funcionários, já que achava que a pandemia passaria logo. Depois, reduziu e suspendeu os contratos dos colaboradores, mas agora acabou precisando demitir e pagar o valor da estabilidade, conforme determina a Medida Provisória que criou o benefício aos empresários, suspendeu pagamento de linha de crédito para investimento e, para não perder todos os pais, deu descontos médios de 55% no valor da mensalidade.

Ela também cortou uma série de serviços e despesas e fez empréstimo para pagar a folha de pagamento. "Foram dias de muita angústia. Teve dias que recebi oito rescisões de pais e por mais que tivesse reduzido as despesas da escola em 60% - graças à ajuda do governo federal com as suspensões e reduções de salário - eu ainda tinha contas a pagar e manter a escola".

Para se aproximar das crianças, a maneira encontrada são as visitas feitas pelas professoras - duas vezes por semana - às suas casas, para que haja estímulos pedagógicos, brincadeiras e a manutenção do vínculo afetivo. Quanto aos preparativos para a reabertura, reforço em todas as medidas de higiene, medição de temperatura, uso de máscaras, preparo dos profissionais, entre outros. "Me solidarizo com todas as escolas nesse momento e sei o quanto está sendo difícil para os gestores e funcionários". (LM)

Nilce Paranhos, diretora do Colégio Pollicare e membro do NEP, conta que a inadimplência mais que dobrou entre março e agosto. A evasão nos anos iniciais da educação infantil, até os três anos, foi bastante significativa. "Fizemos todo o esforço para manter todos de nossa equipe, porém com a indefinição sobre o retorno das aulas, o aumento da inadimplência, a evasão dos alunos nos anos iniciais da educação infantil, estamos enfrentando muitos desafios para manter todo nosso quadro", afirmou.

Sem revelar números, Nilce informa que com o objetivo de manter o quadro de funcionários, buscou apoio nas medidas do governo que - sem elas - seria impossível manter a equipe. Enquanto isso, a escola também se preparou para atender os alunos com as aulas retomas com estrutura de tecnologia da informação para monitoramento em tempo real das aulas online e suporte aos pais e alunos. "Aumentamos as plataformas digitais que são disponibilizadas aos nossos alunos, investimos em treinamento de nossa equipe e em novas ferramentas para atendimento remoto".

E, quanto ao retorno, já foram feitos investimentos em sanitização dos ambientes através de empresa especializada, em tapetes higienizantes para os pés, sinalização com comunicação educativa sobre distanciamento e higienização frequente das mãos, redução no número de carteiras nas salas de aula, instalação de totem com álcool em gel pela escola, treinamento da equipe, compra de novos EPIs, aumento da ventilação dos ambientes, compra de termômetros a laser, etc.

"A expectativa para o retorno é muito grande. A escola sem os alunos perde sua vida. É triste andar pelos corredores e não vê-los. Sabemos que no retorno será de suma importância, além de todos os cuidados com a segurança e saúde, termos uma atenção muito especial à questão sócio emocional dos alunos e estaremos preparados para recebê-los, darmos continuidade às análises diagnósticas que estamos fazendo para manter a qualidade do ensino e retomarmos à normalidade", afirmou. (LM)

  • Inadimplência em março 9,4%
  • Inadimplência em agosto 25,7%
  • Alta de 16,4 pontos percentuais
  • Demissão de professores 6,8%
  • Demissão de funcionários/auxiliares 30%
  • Evasão escolar 29,1%

Fonte - Núcleo das Escolas Particulares (NEP), da Associação Comercial e Empresarial de Rio Preto (Acirp)

Índice de inadimplência

  • Janeiro - 4,67%
  • Fevereiro - 4,85%
  • Março - 13,59%
  • Abril - 21,81%
  • Maio - 24,45%
  • Junho - 28,11%
  • Julho - 24%
  • Julho - 19,24% Média do Estado

Fonte - Sieeesp