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AgroDiário

Defensivos biológicos ganham espaço no mercado agrícola

Na safra passada, o setor de defensivos agrícolas biológicos movimentou mais de R$ 1 bilhão no País; entre os 67 defensivos que o Ministério da Agricultura acaba de liberar para aplicação, 13 são biológicos, um deles produzido em Rio Preto

Marival CorreaPublicado em 10/03/2021 às 00:36Atualizado há 06/06/2021 às 10:41
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Na safra passada, o setor de defensivos agrícolas biológicos movimentou mais de R$ 1 bilhão no País; entre os 67 defensivos que o Ministério da Agricultura acaba de liberar para aplicação, 13 são biológicos, um deles produzido em Rio Preto (Fotos: Divulgação)

No mês passado, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) publicou o registro de 67 defensivos agrícolas que poderão ser usados pelos agricultores, os chamados produtos formulados. Entre os itens registrados, 13 são biológicos, destinados ao controle de pragas, segundo o Departamento de Sanidade Vegetal e Insumos Agrícolas, da Secretaria de Defesa Agropecuária. O fabricante de um deles é de Rio Preto, apto formalmente a concorrer em um setor que já movimenta mais de R$ 1 bilhão no Brasil.

De acordo com dados de pesquisa da IGH Markit, o mercado de controle biológico, que abrange produtos micro e microbiológicos, à base de fungos, bactérias e vírus, dobrou nos dois últimos anos no Brasil, movimentando mais de R$ 1 bilhão na última safra. Atualmente, os produtores rurais contam com defensivos agrícolas químicos e biológicos, sendo em sua maioria, utilizados os produtos químicos, conhecidos também como agrotóxicos.

Especialistas e revendedores de defensivos agrícolas acreditam no crescimento do setor de defensivos biológicos. Porém, afirmam que os agricultores ainda não têm muitas informações sobre os biodefensivos. O engenheiro agrônomo da Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável (CDRS) de Rio Preto, Andrey Vetorelli Borges, explica que o mercado de defensivos agrícolas biológicos está em expansão no País e que "o governo federal tem buscado incentivar o setor, com os registros destes produtos, a partir de pesquisas desenvolvidas pela Embrapa, entre outros órgãos de pesquisa".

Ainda de acordo com o especialista, os defensivos agrícolas, também chamados de agrotóxicos, de acordo com a legislação do Mapa, são aqueles que possuem moléculas químicas com ação para fungicidas, inseticidas e herbicidas. Já os defensivos agrícolas biológicos são microrganismos vivos, captados no próprio meio ambiente e desenvolvidos em laboratórios. "A vantagem é que o uso de biológicos não desequilibram o meio ambiente e o produtor pode fazer um manejo mais seletivo", diz Andrey.

Entre esses defensivos agrícolas biológicos, registrados pelo Mapa no mês passado, está incluído um produto fabricado em Rio Preto pela Oligos Biotec, para o controle de pragas em qualquer cultura. De acordo com o gestor administrativo da empresa, Marcelo Fialho de Oliveira, a Oligos Biotec fabrica atualmente dois tipos de defensivos biológicos. Além disso, possui mais três outros produtos em fase de registro pelo Mapa. "A produção de insumos biológicos é um mercado novo, mas está em expansão gigantesca hoje no Brasil", analisa.

O produto da empresa, fabricado pela Oligos, é um inseticida biológico, a base de um fungo. Justamente por causar a doença nos insetos e provocar a morte das pragas, ele não polui o meio ambiente. "O produto pode ser usado tanto em culturas orgânicas como em sistemas de agricultura convencional", afirma o gestor.

Na região de Rio Preto, o defensivo biológico é bastante utilizado na cultura de cana-de açúcar. Marcelo ainda lembra que, recentemente, muitos agricultores não tinham confiança nos produtos biológicos. Situação que começou a mudar atualmente. O profissional esclarece que o investimento para a fabricação e comercialização das oito mil doses mensais é bastante elevado. Além disso, a obtenção do registro nos órgãos competentes como Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Mapa é bastante demorado.

O laboratório da Oligos Biotec em Rio preto possui parceria com a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da USP, para as pesquisas que serão utilizadas na fabricação dos produtos. "É uma fábrica de reprodução de fungos, onde fazemos as análises, produzimos comercialmente os produtos, embalamos e distribuímos em vários estados brasileiros", complementa Marcelo.

Em 2019, a Bionat Agro, que desenvolve e produz defensivos microbianos para controle de pragas e fitopatógenos, também recebeu registro junto ao Ministério da Agricultura para comercializar os produtos. De acordo com Luciano de Gissi, diretor de operações da Essere Group, desde a sua concepção, a Bionat Agro "foi totalmente pensada para suprir um mercado com enorme potencial, crescente e que anseia por soluções inteligentes e sustentáveis".

Luciano explica que a empresa, que hoje se fundiu em holding (a Essere Group) e já atuava no mercado há 32 anos com a fábrica Kimberlit, de fertilizantes agrícolas, expandiu os negócios com a Bionat, exclusivamente para a produção dos defensivos agrícolas biológicos. "Podemos dizer que em 2020 tivemos um crescimento de 30% no mercado de produtos agrícolas biológicos e a tendência é crescer ainda mais este ano", calcula Luciano.

Com unidade fabril instalada em Olímpia, Luciano conta que empresa também vai ampliar os negócios em Rio Preto, destacando que a Bionat Agro possui capacidade de produção de bioinsumos para tratamento de até 350 mil hectares por ano no setor agropecuário. "Não há a menor dúvida que o mercado de defensivos agrícolas biológicos está em crescimento no mercado e vivemos um momento absolutamente promissor", afirma.

Produtores aprovam e revendedores apontam expansão

O produtor Alexandre Pinto César diz que utiliza produtos biológicos há seis anos em lavouras de cana na região. "Percebi que estávamos usando muitos produtos químicos para o controle de pragas, principalmente da cigarrinha, com custos bastante altos. Então passei a prestar mais atenção na parte nutricional das plantas e a trabalhar com produtos biológicos", conta.

A mudança deu resultado. "As aplicações exigem conhecimento técnico por parte dos produtores rurais. Como há organismos vivos, é preciso estar atento às condições climáticas e formas de aplicação do insumo biológico", diz Alexandre. O produtor aposta na expansão dos produtos biológicos, como o de microrganismos de solo, para melhorar a eficiência da adubação. Ele diz já ter notado uma melhora e acredita que essa novidade deve modificar a agricultura da atualidade.

Há dois anos, o produtor Carlos Augusto Testa, que possui plantações de hortifrútis em Rio Preto, começou a usar os defensivos agrícolas biológicos em culturas de tomate, pimentão, pepino e abobrinha. "O início da utilização foi devido à pressão de pragas, que estavam resistentes às moléculas químicas que existem no mercado, daí a necessidade de alternativas para efetuar o controle. A partir dessa necessidade, comecei a utilizar fungos e bactérias no controle das pragas."

É importante, segundo Augusto, saber fazer o uso dos defensivos biológicos, que também podem ser intercalados, quando necessário, ao bom desenvolvimento das plantações, dos produtos agrícolas químicos. Ele explicou que fez uso de biodefensivos para o controle de nematoides, que são vermes de solo que atacam as raízes das plantas e comprometem a produção. "Os biológicos são mais uma ferramenta, com resultado de excelência."

Revendedores

Apesar de não ter dados específicos sobre a venda de defensivos agrícolas biológicos em Rio Preto, as empresas que comercializam os produtos vislumbram o mercado crescente deste setor, principalmente com a produção mais sustentável dos alimentos e da preocupação ambiental

"As empresas multinacionais, fabricantes de produtos agrícolas químicos, estão investindo bastante nos defensivos biológicos. No Brasil, esse mercado está em expansão, e não se pode mais ter a desconfiança de que estes produtos não funcionem", afirma André Volfe, gerente da Coopercitrus em Rio Preto. Ele lembra que muitos produtores ainda não possuem muitas informações sobre os defensivos biológicos. Por isso, a demanda inda é baixa.

Os produtos biológicos mais procurados, segundo André, são os fungicidas e inseticidas, destacando que é importante o produtor rural fazer o uso intercalado entre químicos e biológicos. "Não há dúvida que os defensivos biológicos são eficientes, além de também apresentarem custo-benefício aos agricultores."

O gerente da Cooperativa Camda, de Rio Preto, Odirley Maioli, comenta que "é uma tendência tão forte do mercado de defensivos biológicos, que o produtor deve procurar se adequar para não ficar desatualizado deste mercado".

Na região, Maioli explica que, em função do grande número de usinas sucroalcooleiras e consequentemente de produtores de cana-de-açúcar, o uso de defensivos biológicos já tem volume maior de venda nesta cultura. (CC)

Produtos biológicos produzidos em laboratório da Oligos Biotec (Divulgação)
Laboratório da Oligos Biotec, especializada em controle biológico no campo, a exemplo da amostra de insetos (abaixo) para controle de pragas (Divulgação)
Cos D'Estournel, que fica em St-Estephe, na margem esquerda do Garonne (Alberto Andalo Junior/Arquivo pessoal; Vinexia.fr)
 
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