Frigoríficos da região investem em novo modelo de rastreamento de gado

AgroDiário

Frigoríficos da região investem em novo modelo de rastreamento de gado

Em meio à pressão internacional para que o Brasil tome medidas contra o desmatamento da Amazônia, grandes frigoríficos investem em rastreamento dos plantéis, inclusive do gado comprado de terceiros


Minerva Foods:  investimento em software que mapeia os bovinos abatidos, inclusive aqueles adquiridos de fornecedores indiretos
Minerva Foods: investimento em software que mapeia os bovinos abatidos, inclusive aqueles adquiridos de fornecedores indiretos - Divulgação

Para minimizar problemas com fornecedores indiretos de gado - principalmente quanto à questão de ilegalidades ambientais porventura cometidas por esse segmento dos pecuaristas e que são mais difíceis de rastrear -, a Minerva Foods vem implementando medidas que mapeiam a possibilidade de os bovinos que estão sendo abatidos pela empresa terem passado, em alguma etapa da sua vida, por áreas desmatadas ilegalmente, embargadas pelos órgãos ambientais ou que empreguem trabalho análogo à escravidão - práticas proibidas por lei.

O "calcanhar-de-aquiles" para o monitoramento ambiental da cadeia pecuária, sobretudo na Amazônia, está em rastrear a origem do gado dos "fornecedores indiretos", ou seja, aqueles que venderam o bezerro ou o boi magro para o "fornecedor direto" - que é o pecuarista que vende o gado para abate e já é monitorado pelos grandes frigoríficos. Caso esses animais sejam provenientes, em alguma etapa de sua vida, de áreas irregulares, acabam "contaminando" a imagem da indústria em relação à sustentabilidade ambiental.

Assim, para evitar surpresas desagradáveis com fornecedores indiretos, a Minerva Foods iniciou testes com o Visipec, ferramenta criada pela ONG National Wildlife Federation (NWF) e pela Universidade de Wisconsin-Madison, explica o diretor de Sustentabilidade da Minerva Foods, Taciano Custódio, que apresentou as práticas de sustentabilidade da empresa, esta semana, no webinar "Traceability: Solutions for Sustainability", promovido pela Global Roundtable for Sustainable Beef.

"Os criadores do Visipec desenvolveram um software de avaliação que se baseia nas emissões de GTAs e em suas ligações", disse Custódio, pouco antes de se apresentar no webinar - a Minerva foi a única empresa da América do Sul no evento.

GTA é a sigla para Guia de Trânsito Animal, um documento oficial e obrigatório no transporte de animais no País. Na GTA, deve constar, entre outras informações, a finalidade do transporte, as condições sanitárias, a origem e o destino do animal. O Ministério da Agricultura obriga a emissão do GTA em qualquer movimento de animais - até mesmo os de estimação, como cachorros ou gatos. "Essa é a ferramenta mais promissora para monitorar o risco dos fornecedores indiretos", afirmou o executivo.

Expectativa positiva

A companhia começou a testar o Visipec em agosto deste ano. "É a primeira vez que isso está sendo testado em indústria exportadora, de capital aberto, é o primeiro teste nessa escala, e a expectativa é muito positiva." A expectativa, segundo Custódio, é que haja algum resultado formal entre outubro e novembro. "Por enquanto, são resultados muito preliminares", diz.

O software está sendo testado em Mato Grosso, Pará e Rondônia, e é abastecido com as GTAs emitidas até meados de 2019 - quando os dados sobre GTAs eram abertos. Como a idade média de abate de bovinos nos frigoríficos da Minerva é de 30 meses, os animais abatidos em 2021 ainda estarão dentro da janela de abrangência do programa. Enquanto isso, serão analisadas formas de melhorar, junto com o mercado e entidades de classe, o mapeamento de risco dos fornecedores indiretos - já que as GTAs são sigilosas agora e é nelas que o Visipec se baseia.

Presença na região

A Minerva Foods é uma das líderes na América do Sul na produção e comercialização de carne in natura e seus derivados e atua também no segmento de processados, comercializando seus produtos para mais de 100 países. A companhia possui, atualmente, capacidade diária de abate de aproximadamente 26 mil cabeças de gado e de desossa equivalentes a mais de 27 mil cabeças de gado. No Brasil, conta com dez frigoríficos e uma planta de processamento, comercializados para clientes do mundo todo, por meio de seus nove centros de distribuição e 15 escritórios internacionais.

Uma de suas unidades fica localizada em José Bonifácio, que juntamente com outras quatro plantas da empresa, é habilitada para exportação de carne bovina para a Indonésia. O primeiro lote ao país do sudeste asiático foi enviado no ano passado.

Além do Brasil, a Minerva Foods está presente no Paraguai, na Argentina, no Uruguai, na Colômbia e no Chile, por meio de sua subsidiária Athena Foods.

A Marfrig Global Foods, segunda maior indústria de carne bovina e a principal produtora de hambúrguer do mundo, anunciou, em julho, um compromisso para rastrear a origem de todo o gado abatido - desde a criação do bezerro. A meta é implementar o rastreamento completo até 2025, evitando comprar gado em áreas desmatadas mesmo indiretamente. Os investimentos em sustentabilidade da companhia vão superar R$ 500 milhões até 2030 - a maior parte será aplicada nos primeiros cinco anos do plano. Na última década, o investimento da Marfrig em sustentabilidade chegou a R$ 270 milhões.

"É desafiador, mas alguém tinha que fazer", afirmou Marcos Molina, fundador e controlador da Marfrig, em entrevista ao Valor Econômico. A esperança dele é que, com o pontapé inicial dado pela empresa, governo e outros frigoríficos se engajem na missão.

Molina foi um dos empresários que participaram de ato virtual, também realizado em julho, no qual o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, recebeu carta assinada por empresários brasileiros na qual cobraram, do governo, maior compromisso com o meio ambiente e medidas efetivas para proteger a Amazônia - o atual descontrole no desmatamento coloca as exportações de carne em risco, uma vez que o mercado internacional pressiona cada vez por carnes certificadas, desassociadas de crimes ambientais.

Com o compromisso que anuncia nesta quinta-feira - o projeto foi batizado de "Marfrig Verde " -, o objetivo é, gradualmente, rastrear também o fornecedor indireto. Para tanto, a companhia lançará mão de diversas ferramentas, como um mapa de mitigação de risco que já estava em construção e que vai sobrepor as regiões típicas de produção de bezerros com áreas de vegetação nativa, cruzando também com os dados dos alertas de desmatamento e as áreas das propriedades rurais dos fornecedores diretos da companhia.

O plano da Marfrig também passa pelo relacionamento com os fornecedores diretos, canal essencial para rastrear os indiretos. Entre as medidas do projeto da companhia, está a criação de linhas de crédito subsidiada para que os pecuaristas possam investirem genética e recuperação de pastagens e que poderão contar com recursos da companhia e de parceiros que se associem ao projeto - inclusive do mercado financeiro.