Setor sucroenergético investe no reúso da vinhaça na lavoura

AgroDiário

Setor sucroenergético investe no reúso da vinhaça na lavoura

Usina do setor sucroenergético investiu R$ 18 milhões em projeto de vinhaça concentrada e do reúso da água


Aplicação de vinhaça: técnica transforma 
resíduo em fertilizante
Aplicação de vinhaça: técnica transforma resíduo em fertilizante - Divulgação/Unica

As usinas e lavouras de cana-de-açúcar são muitas e se concentram em grande parte do Noroeste Paulista, sendo possível, muitas vezes, a população reconhecê-las pelo malcheiroso resíduo deixado por elas, conhecido como vinhaça ou vinhoto. Em Potirendaba, o projeto de uma usina de cana-de açúcar chama a atenção por investir alto em equipamentos que fazem a concentração da vinhaça, eliminando o cheiro pouco agradável e aplicando o produto como fertilizante na lavoura canavieira.

A cana-de-açúcar, depois de passar por vários processos na indústria e que vai gerar produtos como o etanol e o açúcar, produz a vinhaça, um resíduo de consistência pastosa que sobra desse processo de fermentação. Esse material é muito utilizado pela usina como fertilizante na plantação dos canaviais. Na unidade da Cofco em Potirendaba o investimento foi para melhorar a aplicação desta fertirrigação, utilizando o que é chamado de vinhaça concentrada.

O gerente agrícola da Cofco de Potirendaba, Fulvio Alexandre Zara, explica que o projeto, da ordem de R$ 18 milhões, permitiu que a empresa, através de equipamentos como os concentradores, faça, de modo sustentável, a concentração da vinhaça. "Após a colheita da cana-de-açúcar é feita a aplicação da vinhaça, um adubo importante para a planta, muito rico em potássio, além de fertilizantes ricos em outros nutrientes", diz.

Os caminhões, segundo Fulvio, levam a vinhaça concentrada para a lavoura e fazem a aplicação destes fertilizantes de modo localizado, em cima da linha de cana-de-açúcar, onde estão as raízes da planta. "Cada caminhão leva a vinhaça para oito linhas de cana, com espaçamento de 1,5 metro entre a plantação, o que evita o desperdício destes fertilizantes", explica Fulvio ao destacar também que o odor após a aplicação é agradável.

Para cada litro de álcool produzido pelas usinas do setor sucroenergético, conforme Fulvio, 12 litros de vinhaça são deixados como resíduo.

"Com a concentração feita na Cofco, retiramos toda a água que é reutilizada depois, o que resulta em 5 litros de vinhaça, uma redução em torno de 50% em comparação com as demais usinas", afirma. Ele explica ainda que o alto investimento no projeto permite à Cofco maior produtividade da lavoura, além de eliminar a compra de cloreto de potássio, o fertilizante que é utilizado nas plantas e que tem custo elevado no mercado.

Outro problema frequente que Fulvio destaca e pode acontecer com a usina que não faz a concentração da vinhaça é com relação à mosca do estábulo, que ataca o gado nas propriedades rurais. "Com a aplicação de vinhaça de forma controlada, não há a incidência de moscas no canavial, que se espalham pelas propriedades ao redor das plantações de cana", observa.

Na unidade da Cofco, em Potirendaba, são processadas 3,8 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, anualmente. Desse total, 60% são destinados para a produção de açúcar e 40% para a produção de etanol. Todo esse processo exige alto consumo de água, de acordo com o gerente corporativo de engenharia e projetos da Cofco, Marcelo Cavalli. "A meta global da Cofco é de redução de 10% de água bruta até o ano de 2025", diz.

Na unidade de Potirendaba, Marcelo afirma que o processo de produção de vinhaça concentrada já existe há dez anos e, como parte do projeto, a meta é fazer o reúso da água. "A cana-de-açúcar, quando chega do campo para a usina, exige uma grande concentração de água. Cerca de 70% da vinhaça no processo industrial é composta por água."

A inovação em eficiência hídrica da Cofco é neste sentido, quando o manejo da vinhaça é melhor distribuído. Conforme Marcelo, "ao invés de utilizar grande volume desta vinhaça, só é aplicado o que é necessário para a planta". Ele conta que a usina utiliza muita água para outros processos, como o de resfriamento, a extração do caldo e a limpeza, sendo necessário fazer o reúso da água para diminuir o consumo deste recurso na usina.

Todo o processo do reúso da água é autossustentável, de acordo com Marcelo, sem a necessidade de utilizar outros recursos, como a captação em poços artesianos ou rios. No processo da concentração de vinhaça a água retirada é tratada e grande parte retorna para a usina,o que minimiza o impacto ambiental. (CC)

A aplicação de vinhaça no solo agrícola é regulamentada pela Norma Técnica estadual 4.231/2005. O objetivo é estabelecer os critérios e procedimentos para o armazenamento, transporte e aplicação da vinhaça, gerada pela atividade sucroalcooleira no processamento de cana-de-açúcar, de acordo com a Secretaria de Meio Ambiente, por meio da Cetesb, que é o órgão fiscalizador.

O engenheiro agrônomo José Osmar Bortoletti, da Secretaria da Agricultura do Estado, em Rio Preto, disse que vários critérios são fiscalizados pela Cetesb, como as doses de vinhaça aplicadas, a profundidade do solo, entre outros cuidados exigidos das usinas.

"A concentração de vinhaça é uma evolução tecnológica. Se bem aplicada, se transforma em um fertilizante rico", diz Bortoletti. Em situações em que não é feita a aplicação concentrada, ele explicou que a vinhaça se espalha mais facilmente, o que pode causar dano ambiental. "Quando se faz a aplicação localizada, com a vinhaça concentrada, se diminui o cheiro ruim, a poluição e outros riscos danosos causados pelo setor."

Para o engenheiro agrônomo da Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável (CDRS), Andrey Vetorelli Borges, a vinhaça é "um adubo fantástico para o solo, rico em potássio, muito bom para qualquer cultura, mas reutilizado, principalmente, no canavial com o objetivo de diminuir a adubação química".

Andrey aponta um problema muito comum, que ocorre quando a aplicação é feita em excesso pelas usinas. "A vinhaça, quando utilizada em grande quantidade, poderá se acumular na curva de nível da plantação. Como é um produto doce, com muita matéria orgânica, pode atrair muitas moscas, inclusive a mosca do estábulo, um problema sério que ataca as criações."

Com a vinhaça concentrada pela Cofco, Andrey destaca a importância de um projeto de aplicação sustentável. "Com o alto investimento feito pela usina, em equipamento que diminui o volume da vinhaça, retirando a água, vai evitar a proliferação de moscas", destaca. (CC)