Baixa umidade e muito vento: combinação perfeita para as queimadas

AgroDiário

Baixa umidade e muito vento: combinação perfeita para as queimadas

Época do ano é de atenção nas propriedades em função da estiagem


Queimada em canavial às margens de rodovia
Queimada em canavial às margens de rodovia - Marco Antônio dos Santos

No ambiente rural, são considerados prejuízo e dor de cabeça para o agropecuarista quando um incêndio atinge a propriedade rural, deixando sempre um rastro de devastação ao meio ambiente, aos animais e às pessoas. Especialistas recomendam aos produtores uma série de cuidados para evitar o fogo nas plantações e um planejamento na propriedade para conter as chamas, em caso de ocorrência.

"Nós recomendamos que o produtor rural esteja atento nesta época do ano - principalmente no período de julho a setembro - quando há o aumento da incidência de ventos, baixa umidade relativa do ar e não ocorrem chuvas. O risco das queimadas é grande, o que não é bom para o campo", diz o engenheiro agrônomo da Coordenadoria de Desenvolvimento Rural e Sustentável (CDRS), Andrey Vetorelli Borges.

Com a queimada, há a degradação do solo, o fogo danifica cercas, equipamentos e pode atingir a rede elétrica, além do prejuízo para a própria cultura. "É muito prejudicial ao produtor, sem contar o dano à plantação, pastagem e às criações", afirma Andrey.

A orientação para os agricultores, segundo Andrey, é que eles se informem sobre a legislação que trata dos incêndios florestais, sendo provocado acidentalmente ou por terceiros. "Não é permitido colocar fogo na propriedade rural, mas quando houver a necessidade, no caso de algumas culturas, como por exemplo, a da laranja para eliminar a doença do cancro cítrico, é preciso de autorização da Cetesb". O engenheiro agrônomo lembra que é importante o produtor estar bem informado sobre a legislação, para evitar multas ou outras punições previstas por lei.

Como medida preventiva, Andrey explica que o produtor deve adotar em sua propriedade a construção e manutenção de aceiros, que são locais desprovidos de vegetação, sempre limpos e que impeçam a propagação de fogo nas lavouras e no entorno da área rural. "É comum o aceiro, mas ainda tem alguns agricultores que não tomam essa medida. E precisa ter o aceiro, que geralmente é feito com o trator ou com a enxada, deixando os espaços bem limpos", diz Andrey.

Adotar um plano de contenção de incêndio é outra medida importante, segundo Andrey. Os trabalhadores da propriedade precisam ser treinados. "Disponibilizar os telefones de contato do Corpo de Bombeiros ou das usinas, que normalmente mantêm caminhões-pipas e um bombeiro para controlar o incêndio. Também ter tanques de água sempre cheios, além de equipamentos como abafadores", explica o engenheiro agrônomo.

Com o número grande de canaviais na região do Noroeste do Estado de São Paulo, as queimadas ou incêndios ocorrem com muita frequência no período de estiagem, e o esforço, em conjunto entre produtores rurais e órgãos públicos, é fundamental, conforme o engenheiro agrônomo da Casa de Agricultura de Mirassolândia, Carlos Roberto Geraldo. "Aqui na nossa região existe a cooperação entre o Corpo de Bombeiros, as Prefeituras de vários municípios e a Defesa Civil, que coordenam os trabalhos quando há um incêndio em propriedades rurais", lembra Carlos.

Produtores rurais

Uma das culturas muito atingidas por incêndios é a da cana-de-açúcar, principalmente quando os canaviais estão próximos às rodovias e se tornam verdadeiras armadilhas para encontrar um cigarro aceso, iniciando o fogo de grande proporção. "Os incêndios em canaviais são verdadeiro pesadelo para nós", afirma o produtor rural Alexandre Pinto César.

Alexandre possui 1,3 mil hectares de canaviais, em propriedades nos municípios de Onda Verde, Nova Granada e Icém, na região de Rio Preto, e dispõe de estrutura e planejamento para evitar a disseminação do fogo nas plantações. Ele disse que investe cerca de R$40 mil em prevenção de incêndio, anualmente.

"São equipamentos como os extintores nas máquinas que estão no campo, sempre um caminhão-pipa que acompanha o funcionário que está na colheitadeira, além de todo treinamento aos funcionários e orientações como as de não fumar durante o trabalho e não estacionar veículos próximos ao canavial", aponta Alexandre.

Em suas plantações não houve registro de queimada, em 30 anos de experiência com a cultura da cana-de-açúcar, o que não diminui a preocupação com o problema, muito comum na região. "Esse ano tive notícia de dois incêndios de grandes proporções e, no ano passado, foram 11 mil hectares de canavial atingidos por incêndios, com a duração de três dias e que envolveram 25 caminhões-pipas", afirma Alexandre.

O produtor Antônio Donizeti Pelegrini diz que não vê a hora de colher logo a cana, neste período de estiagem, para conseguir dormir tranquilo. No canavial de 100 hectares, localizado em Mirassolândia, Donizeti sempre tem problemas com queimadas. "No ano passado, foram dois talhões de cana queimados. Um prejuízo de R$ 50 mil", relata.

Os aceiros na propriedade de Donizeti são sempre bem cuidados. Segundo ele, é importante manter a limpeza da vegetação para afastar o risco de incêndios.

Além da cana-de-açúcar, Donizeti possui 3 mil pés de seringueiras, outra cultura que requer muito cuidado. "Não tive problema no seringal, mas se tiver muita folha seca, e ocorrer um incêndio, não tem como sangrar mais as árvores afetadas", finaliza o produtor.

 

O Grupo Tereos Açúcar & Energia Brasil- com quatro usinas na região do Noroeste Paulista- investiu em veículos de acesso rápido aos canaviais e um aplicativo para monitorar aceiros na prevenção e no combate ao fogo nesta safra. De acordo com o gerente de Meio Ambiente e Sustentabilidade, André Tebaldi, "os veículos de controle rápido têm contribuído para a agilidade no combate das brigadas, o que reduz a extensão dos incêndios". E o aplicativo 'Checklist de Aceiros', outra medida adotada pelo Grupo, foi desenvolvido para auxiliar os técnicos que vistoriam o campo ao redor dos canaviais.

Tebaldi explica ainda que há a cooperação da Tereos junto aos produtores rurais, através do Plano de Ajuda Mútua (PAM), firmado entre as usinas, parceiros, Corpo de Bombeiros e Defesa Civil de cidades da região. "É praxe do setor que as usinas combatam qualquer foco de incêndio, independente de ser canavial próprio, de parceiro ou fornecedores, principalmente pelo fato de que um incêndio iniciado em qualquer localidade pode se tornar incêndio de grandes proporções dependendo do vento e umidade relativa, e causar enormes prejuízos para quem quer que seja."

Multas

Responsável pela fiscalização das queimadas, a Polícia Ambiental pode aplicar multas, aos produtores rurais infratores, que variam entre R$ 1 mil por hectare a R$ 75 mil por hectare, se o incêndio atingir Área de Preservação Permanente (APP). "É muito importante o produtor rural investir em prevenção, evitando os incêndios e as multas", explica o major Alessandro Daleck, coordenador do 2º Batalhão da Polícia Ambiental.

Conforme Daleck, muitas culturas agrícolas no Noroeste Paulista podem ser consideradas de risco, onde há a maior possibilidade de incêndios, principalmente no período de maio a outubro. "Os canaviais prevalecem nesta região e com os fortes ventos e a baixa umidade do ar, ocorrem os incêndios", lembrou Daleck ao dizer que é importante a construção de aceiros e de todo tipo de obstáculo da propriedade rural para evitar a propagação do fogo, além de outros 14 itens necessários e que são observados durante a fiscalização da Ambiental.

De acordo com o tenente Diego Moraes Machado, do Corpo de Bombeiros de Rio Preto, na cidade e região - 96 municípios são atendidos pela corporação- foram registradas 3.452 ocorrências de incêndio em vegetação no ano passado e 2.171 ocorrências até o último dia 28 de julho deste ano. Para o tenente Diego, é importante que a população esteja atenta, tanto na área urbana como na área rural, para não atear fogo em nenhuma hipótese.

"Temos sempre estimulado as empresas do setor sucroenergético a se organizarem, com medidas de prevenção e planos de ações mútuas para quando, em casos de incêndios nos canaviais, o combate seja efetivo e eficaz", diz o tenente Diego. Ele lembrou ainda que a fumaça causada por incêndios em vegetação causam muitos problemas respiratórios à população. "Como se não bastasse a pandemia do coronavírus que estamos passando, ainda temos o ar poluído por queimadas", conclui. (CC)