Uvas 'Carmem' e 'Magna' despontam nas parreiras da região de Jales

AgroDiário

Uvas 'Carmem' e 'Magna' despontam nas parreiras da região de Jales

Ideais para sucos e vinhos, essas variedades promoveram a expansão da produção de suco de uva para as regiões tropicais do Brasil, antes restrita aos Estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina


Uvas Cabernet Sauvignon da produção do empresário Paulo Girardi
Uvas Cabernet Sauvignon da produção do empresário Paulo Girardi - Divulgação

A safra de uva está começando no Noroeste do Estado de São Paulo e traz novas variedades nas plantações de videiras. Desenvolvidas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), as variedades 'Carmem' e 'Magna' despontam nas parreiras da região de Jales, com boa produtividade e sabor apropriado para a produção de sucos e vinhos. Segundo os viticultores, as 'BRS Carmem' e 'BRS Magna', além de produtivas, são mais resistentes às doenças.

Conforme o pesquisador da Embrapa Uva e Vinho, de Jales, Reginaldo Teodoro de Souza, a cultivar 'Carmem' possui um ciclo tardio e vem se tornando uma opção para produção de suco em regiões de clima quente, no Brasil. "A adaptação das cultivares na região foi muito positiva, tanto em produtividade, principalmente a 'BRS Carmem' para a elaboração de suco, como pelo fato de ser tolerante à doença."

A iniciativa para as pesquisas com as uvas, segundo o pesquisador, veio de encontro com a necessidade de indústrias de processamento de sucos. "Em Rolândia, no estado do Paraná, as indústrias queriam uma uva tardia para aproveitar, inclusive, equipamentos e mão-de-obra no processamento, que antes era utilizado para o suco de laranja. E a uva 'Carmem' atingiu o objetivo, com o suco bem concentrado", contou.

As uvas, consideradas tintureiras, dão maior coloração aos sucos e vinhos de mesa. A cultivar 'Magna' foi testada no estado do Mato Groso e Reginaldo explicou que a uva se adaptou muito bem ao clima quente, com plantações, por exemplo, em regiões do Nordeste. Com essas variedades, os pesquisadores da Embrapa acreditam que a 'Carmem' e a 'Magna', promoveram a expansão da produção de suco de uva para as regiões tropicais do Brasil, antes restrita aos Estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.

Reginaldo, que também é viticultor, plantou em sua propriedade, localizada em Urânia, 0,5 hectare de uvas das cultivares 'Carmem', 'Magna' e 'Isabel Precoce'. A produtividade foi muito boa, segundo Reginaldo, e neste ano a safra foi antecipada. Na colheita do sítio de Reginaldo, foram colhidas cerca de 40 toneladas das uvas, com destaque para a variedade 'Carmem'.

Nesta safra, para a colheita das uvas que Reginaldo plantou, ele dividiu a produção entre o suco e o vinho. "É possível notar a produtividade da uva 'BRS Carmem", que proporciona aproximadamente 660 gramas de rendimento para um quilo da uva. A 'Magna também possui ótimo rendimento, em torno de 60%", diz. Os preços para a comercialização também foram satisfatórios, em média R$ 4,00 o quilo, conforme afirmou Reginaldo.

Testes para suco e vinho

Há duas décadas o produtor rural José Joaquim Garcia se dedica ao cultivo das uvas, em Jales - considerado o maior polo viticultor do Noroeste paulista - e deve colher a segunda safra da variedade 'Carmem' nos próximos dias. "Ainda estou na fase de testes com algumas uvas, para a fabricação de sucos e vinhos artesanais", disse o produtor. Na opinião de Garcia, tudo depende muito da preferência do consumidor, mas os testes demonstraram que o suco da variedade de uva 'Carmem' é mais encorpado.

Outra vantagem apontada por Garcia é que a cultivar 'Carmem' é mais tolerante às doenças, como o míldio, muito comum nas videiras da região. "Acaba que é uma uva sustentável, usei muito pouco defensivo agrícola e a ideia é fazer um suco de qualidade orgânica", afirmou o produtor.

Como na região não há indústrias que processam o suco de uva, o produtor disse que após a colheita, a uva é processada em uma indústria do estado do Paraná. O interesse da população pelo suco de uva tem crescido bastante, de acordo com Garcia, e o suco que ele desenvolve na sua propriedade tem boa aceitação. "No ano passado, produzi cerca de 200 garrafas (500 ml). Ainda é uma escala pequena, mas vamos aguardar a colheita deste ano."

Apaixonado por um bom vinho, o empresário de Rio Preto Paulo Girardi viajou até a França para conhecer as plantações de uvas que se transformam em vinhos finos, muito apreciados no mundo todo. Isso aconteceu há mais de dez anos, quando então o empresário decidiu investir nas videiras de uvas das variedades Syrah e Cabernet Sauvignon. Na fazenda Amazonas, em Rio Preto, ele plantou as mudas que trouxe do país francês, em 0,5 hectare de área destinada às videiras.

Neste ano, o clima colaborou para o plantio, e Girardi acredita que deve colher, no final do mês de julho, a melhor safra das uvas finas Cabernet Sauvignon e Syrah- castas de uvas da espécie Vitis vinifera. "É essencial que façamos a colheita no momento correto, o que proporciona um nível de equilíbrio do grau de açúcar", disse o empresário.

Após alguns testes com as uvas, Girardi acredita que a uva Syrah se adaptou muito bem ao clima de Rio Preto. "Pretende inverter a proporção, com 60% da uva Syrah e 40% da uva Cabernet Sauvignon. Com este método, temos um vinho mais harmônico e suave", lembrou Girardi. Ele também prepara o suco, mas com a pequena produção de uvas da cultivar Bordô.

A vinificação com as uvas finas é feita por uma vinícola no estado de Minas Gerais, com a técnica que Girardi diz ser o preparo ideal para um vinho saboroso e agradável ao paladar. "Com a colheita de 2020 devem ser produzidas cerca de 1,2 mil garrafas de vinho com a nossa marca, a Spirituallis. Ainda não temos a produção comercial, mas é um prazer podermos apreciar um vinho da nossa vindima com os familiares e amigos", concluiu. (CC)

 

Com as opções para a produção de sucos e de vinhos de mesa, o enólogo e pesquisador da Embrapa Uva e Vinho de Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, João Carlos Taffarel considera que as cultivares 'Carmem' e 'Magna' são muito interessantes para o cultivo, principalmente em região de clima tropical. "Para a produção de suco, são fantásticas, com ótima capacidade de sintetização de açúcar", disse o enólogo.

O sabor lembra a framboesa e os bons níveis de açúcar e de acidez destas uvas, de acordo com Taffarel, dão as condições perfeitas para o suco. Quanto aos vinhos, o enólogo disse que ainda estão em fase de experimentos, mas ele lembrou que as cultivares proporcionam vinhos de mesa muito aromáticos e com bastante cor.

Na região norte do Estado do Paraná, onde foi desenvolvida a uva 'Carmem', o enólogo disse que as plantações são muito vigorosas. "A produtividade é muito boa, chega a produzir cerca de 40 a 50 toneladas por hectare, mas recomendamos aos produtores que produzam em torno de 25 a 30 toneladas por hectare", disse Taffarel.

A cultivar 'Magna', segundo o enólogo, também é uma uva tintureira, com sabor que lembra a framboesa, semelhante a 'Carmem'. No entanto, Taffarel explica que a 'Magna' e mais sensível à doença. "A 'Magna' possui ótimo teor de açúcar e pode ser muito utilizada para fazer o corte aos vinhos de mesa, corrigindo o sabor", explicou o enólogo.

Por ser resistente ao míldio, uma doença que ataca as videiras, Taffarel disse que a uva 'Carmem' pode ser muito recomendada para as plantações da região Noroeste do Estado de São Paulo, aonde as chuvas não chegam a ser excessivas e as temperaturas são mais elevadas. "É uma uva que amadurece mais tarde, com um ciclo mais longo, uma vantagem para o produtor", disse Taffarel. (CC)