SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | QUARTA-FEIRA, 06 DE JULHO DE 2022
ORFÃOS DO AUXÍLIO

Desempregados têm contado com ajuda de projetos sociais em Rio Preto

Com o fim do auxílio emergencial, desempregados contam com ajuda de projetos sociais para manter alimentação básica durante a pandemia. Benefício chegou a 127 mil rio-pretenses no ano passado

Rone Carvalho
Publicado em 06/02/2021 às 19:22Atualizado em 06/06/2021 às 12:16
Com o fim do auxílio emergencial, desempregados contam com ajuda de projetos sociais para manter alimentação básica durante a pandemia. Benefício chegou a 127 mil rio-pretenses no ano passado (Guilherme Baffi 3/2/2021)

Com o fim do auxílio emergencial, desempregados contam com ajuda de projetos sociais para manter alimentação básica durante a pandemia. Benefício chegou a 127 mil rio-pretenses no ano passado (Guilherme Baffi 3/2/2021)

Você tem que escolher entre comer ou pagar as contas. A afirmação da mãe de três filhos Ana Carolina dos Santos Furlan, de 32 anos, é a mesma de inúmeros brasileiros desde que o auxílio emergencial chegou ao fim em dezembro do ano passado.

Com o fim da ajuda financeira criada pelo governo federal para atenuar a crise econômica decorrente da pandemia, desempregados têm contado com ajuda de projetos sociais para continuar colocando comida na mesa. "A gente que trabalhou a vida inteira até fica com vergonha de ter que pedir ajuda e por não conseguir emprego, mesmo querendo. É como levar um tapa", diz Ulisses Cezário Cury, de 57 anos, que está desempregado desde o início da pandemia.

Morador da região Norte de Rio Preto, Ulisses esbarra no preconceito pela idade e as dificuldades de locomoção após uma cirurgia para conseguir se recolocar no mercado de trabalho. "Estou cozinhando num fogão a lenha, porque não tenho dinheiro nem para comprar um gás".

Para quem tem filhos, como Ana Carolina, o impacto é sentido de forma mais intensa. "Como mãe, me sinto impotente quando meus filhos pedem um leite ou bolacha e não tenho o que dar para eles. Com o fim do auxílio tudo ficou mais difícil".

Na casa com cinco pessoas - mãe, pai e três filhos - a única renda da família vem do esposo, que faz bicos e recebe pelos dias trabalhados. "Minha casa está atrasada faz seis meses, porque ou pago as contas ou eu como. O pai dos meus filhos mora em casa e ajuda como pode", falou.

Desempregado desde que sofreu um acidente de trabalho, José Aparecido Corrêa, 53 anos, passou a contar com ajuda de vizinhos para manter o sustento dos dois filhos, depois do fim do auxílio emergencial. "Comecei a receber o auxílio emergencial logo no começo da pandemia. Começou nos R$ 600 e terminou nos R$ 300. O dinheiro me ajudava em tudo, principalmente, para comer e pagar as contas. Agora estou com medo de cortarem nossa energia que está em atraso".

Em Rio Preto, segundo o último levantamento feito pelo Diário, pelo menos um em cada quatro rio-pretenses recebeu ao menos uma parcela do auxílio emergencial no ano passado. Ao todo, foram 127 mil beneficiários.

Em todo o Brasil, 68 milhões de brasileiros estão sendo impactados com o fim do auxílio emergencial. Entre os meses de abril a setembro, o pagamento foi de R$ 600 ou R$ 1,2 mil, no caso das mães que criam filhos sozinhas. Valor que caiu pela metade a partir de outubro com as alterações feitas pelo Ministério da Economia.

Para o professor de economia da Universidade de São Paulo (USP) Paulo Feldmann, o auxílio emergencial teve um impacto positivo na economia, principalmente, para os mais pobres. "Minha visão pessoal é que o auxílio tinha que continuar porque aumenta o consumo, o consumo gera empregos e aumenta a arrecadação de impostos estaduais. Esse tipo de consumo de pessoas mais pobres resulta, principalmente, em impostos estaduais, o ICMS", afirmou.

Procurado pela reportagem, o governo federal não soube informar se o auxílio emergencial voltará ou não diante do novo aumento de casos de Covid-19. Na última quinta-feira, 4, o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que o governo estuda voltar o programa assistencial, mas para metade dos beneficiários que receberam o pagamento em 2020.

"O auxílio emergencial não é só importante do ponto de vista econômico, mas também no ponto de vista humanitário. Com o auxílio, as pessoas não saíam com tanta frequência, porque ele deu uma certa tranquilidade. Agora com o fim do auxílio, as pessoas estão tendo que sair mais até para conseguir se alimentar", destacou o professor de economia.

Ajuda voluntária

Diante das dificuldades, são projetos sociais quem têm ajudado as famílias com dificuldades financeiras. No Residencial Solidariedade, em Rio Preto, a organização não-governamental (ONG) Todos contra a Fome ajuda famílias com cestas básicas e doações de legumes arrecadados no Ceagesp de Rio Preto. "Diariamente são duas ou três mensagens pedindo ajuda. Pessoas mandam fotos da geladeira vazia. A fome é triste", disse a fundadora do projeto Ana Paula dos Santos, 34 anos.

O projeto conta com ajuda de doações de membros do Ceagesp. Todas as quartas-feiras, a manicure monta uma banca para distribuir legumes e verduras. "São famílias muito necessitadas", explica o voluntário Silvio Assis da Silva, 37 anos.

Ana Paula diz que o projeto continua ajudando moradores de rua, mas que teve uma queda de doações nos últimos meses. "A gente recebe todos os tipos de alimentos e embalagens de marmita como doação. Precisamos muito de arroz, carnes, macarrão, molhos e feijão. O nosso cardápio é montado de acordo com o que tem no dia. O que a pessoa puder doar já é muito bem-vindo. Quem tiver interesse pode entrar em contato pela nossa página nas redes sociais ou pelo telefone (17) 98827-8726.

Cidades menores sentem o impacto

Economistas se dividem quanto a volta ou não do auxílio emergencial. Enquanto alguns defendem o benefício como forma de movimentar a economia de cidades e evitar o aumento de brasileiros vivendo em situação de miséria, outros avaliam que as contas do país precisam ficar em ordem e que o impacto de um prorrogação do auxílio traria um arrombo ainda maior para economia brasileira.

"Como o auxílio aumentou o consumo dos brasileiros. Nas regiões mais pobres do Brasil, as pessoas passaram a comprar mais alimentos e isso movimentou o comércio nas cidades pequenas que, em geral são muito pobres. Como reflexo disso, o dono da padaria e até loja de roupas acabaram sendo beneficiadas com esse maior consumo influenciado pelo auxílio emergencial", falou o economista Paulo Feldmann.

Na região, Adolfo, Américo de Campos, Aspásia, Bady Bassitt, Bálsamo, Cedral, Cosmorama, Guaraci, Guarani d'Oeste, Indiaporã, Ipiguá, Sales, Santa Albertina, Tanabi, Três Fronteiras, Valentim Gentil, Vitória Brasil e Zacarias estão entre as cidades da região com maior número de moradores que receberam o auxílio emergencial em 2020. Nessas cidades, mais de 25% da população recebeu uma parcela do benefício. Por serem cidades menores, o impacto com fim do programa pode ser sentido de forma mais progressiva pelos comerciantes, avalia o especialista.

Segundo Paulo, estudos da Universidade de São Paulo (USP) mostram que com o fim do auxílio emergencial, o número de pobres e miseráveis deve aumentar no Brasil. "Se o auxílio não voltar, a situação do país vai ficar muito pior. Podemos bater recorde do número de pessoas vivendo em situação de miséria", disse Feldmann. (RC)

 
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