SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | DOMINGO, 05 DE DEZEMBRO DE 2021
EM QUATRO ANOS

Número de trabalhadores idosos no mercado formal cresce 27% em Rio Preto

Número representa 4% do total de empregos formalizados, segundo dados do Ministério da Economia

Bruno Bonfim
Publicado em 17/11/2020 às 23:54Atualizado em 06/06/2021 às 17:05
Número representa 4% do total de empregos formalizados, segundo dados do Ministério da Economia (Johnny Torres 16/11/2020)

Número representa 4% do total de empregos formalizados, segundo dados do Ministério da Economia (Johnny Torres 16/11/2020)

A cada ano, o mercado de trabalho abre espaço para mão de obra experiente e ainda ativa. Isso é o que mostram os dados do Ministério da Economia, disponibilizados pela Relação Anual de Informações Sociais (Rais). Em Rio Preto, o número de trabalhadores idosos com empregos formais cresceu 27% em quatro anos.

Os números consideram os registros dos trabalhadores com mais de 60 anos concursados ou com carteira assinada entre 2015 e 2019, último levantamento divulgado.

Segundo os dados, em 2015 eram 5.243 idosos trabalhando formalmente na cidade. De lá pra cá, houve um crescimento gradual. No ano passado esse quadro era de 6.675 empregados.

No mercado de trabalho rio-pretense a grande maioria dos trabalhadores idosos atua na área de serviços (4.010), seguido pelos trabalhadores do comércio (1.188), indústria (813); construção (596) e agropecuária (68). A média de remuneração mensal, considerando todas as áreas, é de R$ 3,7 mil.

Do total de trabalhadores, 1.393 possuem ensino superior, número parecido com os que possuem o fundamental incompleto (1.308). Já os idosos trabalhadores com ensino médio são 2.527.

Conceição Aparecida de Oliveira Muniz, de 65 anos, é aposentada e decidiu voltar a trabalhar. Desde 2013, ela atua como operadora de telemarketing em uma associação filantrópica de Rio Preto. Ela destaca que a experiência de ter trabalhado com vendas contou bastante na hora de ter o registro em carteira assinado.

"Esse é um trabalho que eu nunca tinha feito, mas que eu aprendi a gostar. Na hora de ser contratada, a facilidade de conversar com as pessoas contou muito", diz.

A decisão de voltar para o mercado de trabalho foi motivada pela necessidade de complementar a renda da família e serviu também como uma maneira de se manter ativa. Desde o início da pandemia, ela passou a trabalhar de casa e, agora, tem a vantagem de fazer horário flexível. "Além da importância social desse trabalho, tem uma importância psicológica para mim. Se estive em casa, sem fazer nada não seria a mesma coisa".

Número inexpressivo

Apesar do crescimento dos idosos no mercado de trabalho, o número ainda é pouco representativo avalia o presidente do Conselho do Idoso, Antonio Caldeira. Os idosos representam apenas 4% do total de trabalhadores formais de Rio Preto (142.230). Segundo Caldeira, apesar da experiência e da qualificação, muitos ainda encontram dificuldades em conseguir trabalho por conta do preconceito. "Eles reclamam muito da falta de oportunidade. Notamos que é necessária uma mudança cultural, já que para a sociedade, o idoso é visto como alguém sem função social", diz.

Caldeira acredita que um dos desafios é o de conseguir sensibilizar empregadores de diferentes áreas sobre a importância social. "Precisamos superar esse paradigma. Nosso entendimento é de que podemos nos aperfeiçoar em todos os momentos da vida e de que os mais velhos ainda são mão de obra produtiva".

Para o economista Bruno Sbrogio, esta mudança de mentalidade já está acontecendo. A expectativa é de que o número de idosos no mercado de trabalho continue crescendo por dois fatores: devido ao envelhecimento saudável da população e por causa da queda na taxa de natalidade - que provoca um número menor de jovens que entram no mercado de trabalho. Em 2015 eram 22,6 mil trabalhadores com idade entre 18 e 24 anos. No ano passado, o número caiu para 20,7 mil.

"Isso vai se solidificar no decorrer dos próximos anos. Com a melhor qualidade de vida, temos muito mais idosos aptos a trabalhar, tanto na questão mental quanto física".

Ainda segundo o economista, a dificuldade em repor material humano nas empresas é um dos fatores que deve influenciar a manutenção dos idosos no mercado formal. Muitas empresas perceberam isso e já estão se adaptando à nova realidade do mercado.

"A falta de oferta de trabalhadores jovens fez com que o mercado começasse a mudar. Na hora de contratar, muitos empregos que eram ofertados para pessoas mais jovens na faixa de 20 a 30 anos estão mirando pessoas na faixa dos 40 a 50 anos, o que era muito incomum", diz.

Além disso, grandes companhias passaram a investir em treinamentos internos e a criar suas próprias universidades. Exatamente por isso, se torna interessante conseguir reter esse trabalhador por mais tempo. "Temos percebido uma mudança na estrutura dos próprios departamentos de Recursos Humanos (RH) para valorizar o profissional experiente. As empresas estão fazendo vários tipos de ações para desaposentar as pessoas".

Trabalho informal é saída ao desemprego

No início do ano, um estudo realizado em Rio Preto mapeou que 28% das pessoas com mais de 60 anos continua trabalhando. Em um universo com mais de 75,5 mil idosos (segundo estima o IBGE), isso significa que aproximadamente 21 mil deles trabalham para complementar a aposentadoria ou como única fonte de renda.

A pesquisa foi realizada pela Prefeitura de Rio Preto no início do ano, financiada pela CPFL e coordenada pela Unilago, em parceria com o Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC-BR).

Sem oportunidade no mercado de trabalho formal, a grande maioria recorre à informalidade - em empregos precários e sem segurança, afirma Alexandre Kalache, epidemiologista especializado em gerontologia e presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC-BR). "Ainda hoje, o idadismo, o preconceito contra a pessoa de idade, é o principal inimigo", destaca.

Ainda segundo Kalache, não é preciso ser idoso para sentir o peso da dificuldade em conseguir trabalho. Trabalhadores com idade entre 40 e 50 anos que perdem o emprego já têm menos chances de recolocação. "O que atrapalha em relação a tudo isso é que existem poucas políticas públicas reais e efetivas de aprendizagem ao longo da vida", destaca.

Para o epidemiologista, o idoso precisa ter o estímulo de aprender a aprender novas coisas, assim ele tem mais chances de permanecer no mercado. "Mas também é preciso que as empresas passem a perceber a importância de se investir em capital humano. O que serve para a empresa e para o País". (FN)

(Reprodução)
 
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