Inflação de setembro é a maior desde 2003

PESO NO BOLSO

Inflação de setembro é a maior desde 2003

Inflação acumulada em 12 meses alcançou 3,14%, conforme o levantamento


IPCA, tido como a inflação oficial do País, subiu 0,64% em setembro pressionado principalmente pelos preços dos alimentos
IPCA, tido como a inflação oficial do País, subiu 0,64% em setembro pressionado principalmente pelos preços dos alimentos - Guilherme Baffi 19/8/2020

Sob pressão da disparada dos preços dos alimentos, a inflação oficial no País subiu 0,64% em setembro, maior resultado para o mês desde 2003, segundo os dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) divulgados nesta sexta-feira, 9, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Carnes, arroz e óleo de soja pesaram no bolso das famílias, assim como os combustíveis. Passagens aéreas e alguns itens ligados ao turismo também esboçam reação. O resultado veio acima do previsto até pelos economistas mais pessimistas ouvidos pelo Projeções Broadcast, que estimavam um IPCA mediano de 0,54%. A inflação acumulada em 12 meses alcançou 3,14%, ante uma meta de 4% perseguida pelo Banco Central.

"É uma inflação (de setembro) preocupante, mas não tem nenhum risco para este ano, quando é provável que o IPCA fique em 2,5%. A questão mesmo está em 2021, quando devemos ter câmbio pressionado, commodities pressionadas e a China com um crescimento forte", afirmou o economista-chefe da consultoria MB Associados, Sergio Vale.

O economista João Fernandes, da Quantitas, acredita que a inflação mais elevada de setembro não ameace a condução da política monetária. "Não tem comparação da importância desse IPCA com a incerteza fiscal de curto prazo. A inflação mais alta reduz a chance de um novo corte da Selic, mas é um efeito limitado. O que poderia suscitar uma alta de juros agora seria o governo romper o compromisso com o teto, não uma reação a essa inflação", opinou.

Em setembro, as famílias gastaram 2,28% a mais com alimentação. O grupo alimentação e bebidas contribuiu com 0,46 ponto porcentual para a taxa do IPCA no mês, o equivalente a 72% da inflação.

Segundo Pedro Kislanov, gerente do Sistema Nacional de Índices de Preços do IBGE, houve uma disseminação maior de produtos alimentícios com aumentos de preços, o que levou a uma inflação de alimentos também mais elevada que o habitual para meses de setembro.

"Tem dois componentes influenciando preços. Tem a questão do auxílio emergencial, uma vez que os recursos são direcionados pelas famílias mais pobres para a compra de alimentos, e a do câmbio, que torna mais atraente a exportação e acaba restringindo a oferta desses produtos no mercado doméstico", disse Kislanov.

Os alimentos para consumo no domicílio subiram 2,89%. O óleo de soja aumentou 27,54%, enquanto o arroz ficou 17,98% mais caro. No ano, o óleo de soja já acumula uma alta de 51,30%, e o arroz subiu 40,69%.

As famílias também pagaram mais em setembro pelo tomate (11,72%), leite longa vida (6,01%) e carnes (4,53%).

"Entre os cinco maiores impactos no IPCA de setembro, quatro são alimentos. De fato, a gente teve alta significativa em alimentos bastante representativos na cesta de consumo das famílias", afirmou o gerente da pesquisa.

As carnes foram o item de maior pressão no IPCA de setembro, uma contribuição de 0,12 ponto porcentual, seguidas pelo arroz (0,10 ponto porcentual), gasolina (0,09 ponto porcentual), óleo de soja (0,06 ponto porcentual) e leite longa vida (0,05 ponto porcentual).

"Teve alta também de produtos que são substitutos. As pessoas saem da carne e vão para o frango, que subiu 2,20%. Então acaba aumentando a demanda, o que pode pressionar o preço", completou Kislanov.

Ficaram mais baratos em setembro a cebola (-11,80%), batata-inglesa (-6,30%), alho (-4,54%) e frutas (-1,59%). Já a alimentação fora do domicílio passou de uma queda de 0,11% em agosto para uma alta de 0,82% em setembro, puxada pelos aumentos nos preços do lanche (1,12%) e da refeição (0,66%).