Preços dos alimentos básicos assustam consumidores

RIO PRETO

Preços dos alimentos básicos assustam consumidores

Em Rio Preto, um pacote de cinco quilos de arroz é encontrado por até R$ 29,59


Lívia, Alexandre e o pequeno Enzo: família não tem mais onde economizar
Lívia, Alexandre e o pequeno Enzo: família não tem mais onde economizar - Arquivo Pessoal

É no supermercado que o consumidor tem sentido mais fortemente o retorno da sombra da inflação. Os preços dos alimentos dispararam e hoje não se fala em outra coisa que não o custo exorbitante de itens essenciais no cardápio do brasileiro como arroz, feijão óleo de soja e leite. Em Rio Preto, um pacote de cinco quilos de arroz é encontrado por até R$ 29,59, mas imagens do produto custando mais do que R$ 40 rodaram a internet nesta semana e provocaram ondas de memes e de indignação.

No acumulado do ano, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação nacional no País e se refere às famílias com rendimento de um a 40 salários mínimos, acumula alta de 0,70% e, em 12 meses, de 2,44%. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a inflação de agosto foi a mais alta para o mês desde 2016, embora o índice (0,24%) tenha desacelerado em relação a julho (0,36%).

Individualmente, o arroz registrou aumento de 19,25% no período, seguido pelo feijão carioca (12,12%). O óleo de soja acumula aumento de 18,63% em oito meses. Os leites e derivados registram alta de 5,69% no período.

Ao trazer esses números para a realidade de Rio Preto, de acordo com o último levantamento da coluna Economize, publicado na sexta-feira, dia 11, dá para se ter uma ideia melhor do alto custo dos alimentos na cidade. Um pacote de cinco quilos de arroz, como já dito anteriormente, pode ser encontrado por até R$ 29,59; um pacote de um quilo de feijão está saindo por R$ 8,99; um litro de óleo de soja custa até R$ 6,19 e um litro de leite pode ser encontrado por até R$ 5,69.

Para comprar apenas esses quatro itens seriam necessários R$ 50,46, o que representa 16,6% dos R$ 300 do novo valor do auxílio emergencial instituído pelo governo federal e que será pago até o fim deste ano. E, para preparar uma refeição com esses alimentos, é preciso comprar um botijão de gás, que em Rio Preto chega a custar R$ 80.

O economista Bruno Sbrogio explica que a inflação ressurgiu no Brasil, assustando trabalhadores tão afetados pela crise financeira provocada pelo coronavírus, por um efeito da quarentena, que se estende no País desde março, quando a pandemia começou a dar seus primeiros sinais. "Empresários e produtores diminuíram a produção, antecipando a queda de demanda que a quarentena provocaria. Diminuindo a oferta, temos um importante fator que ajuda no aumento de preços", explica.

Nesta matemática, entra ainda o aumento do dólar, que causa uma pressão nos custos do produtor, ajudando a elevar os preços no mercado interno. O câmbio teve um efeito adicional, ou seja, tornou a exportação muito mais rentável para quem produz, visto que o que é vendido ao exterior é pago em dólar, moeda mais valorizada em relação ao real. "Essa é uma alta de preços ligada ao câmbio, ao aumento de custos e à diminuição de oferta", afirma. Outro ingrediente, segundo Sbroggio, foi o auxílio emergencial, que também ajudou a demanda a se manter estável, pressionando preços enquanto a oferta caía.

De acordo com o IPCA, pesaram mais no bolso do consumidor em agosto, principalmente, a gasolina, que subiu pelo terceiro mês seguido, e os alimentos, que chegaram a registrar certa estabilidade de preços em julho, mas voltaram a subir em no mês seguinte. "É importante considerar que os alimentos pesam mais para quem ganha menos. Quem ganha até três salários mínimos gasta mais de um terço do salário só com alimentação", completa o economista Hipólito Martins Filho. O item de maior peso (4,67% do total) no IPCA é a gasolina (3,22%), que fez com que os Transportes (alta de 0,82%) apresentassem o maior impacto positivo no índice de agosto. E a segunda maior contribuição veio do grupo Alimentação e bebidas (0,78%).

Para o especialista, é primordial que o governo adote medidas para conter a disparada da inflação, que deve fechar o ano em patamares acima do previsto, na ordem de 3%, e não mais 1,7% ou 1,8%, como se previa anteriormente. Uma das consequências de desestabilização da economia é o aumento dos juros, em breve. "O governo precisa criar alternativas. Que seja retirar alíquotas dos alimentos que podem ser importados e assim gerar concorrência no mercado interno para fazer o preço dos alimentos cair. O que não adianta é tabelar preços. É preciso sentar com o atacado e com varejo e resolver esse problema", afirmou.

Foi justamente o que fez o governo brasileiro no meio desta semana. A Câmara de Comércio Exterior (Camex) zerou a tarifa de importação do arroz. O governo estabeleceu uma cota de 400 mil toneladas de arroz até o fim do ano que podem entrar no País sem a taxa. O montante vale para o arroz com casca e o beneficiado. De acordo com o Ministério da Agricultura, o total é considerado suficiente para ajudar a conter a subida no preço do arroz e garantir que não faltará produto nas prateleiras.

Em tempos de renda achatada, seja pela jornada de trabalho reduzida ou mesmo pelo desemprego, o que resta aos consumidores é buscar alternativas para tentar driblar essas altas de preços que impactam diretamente o orçamento. Como regra geral, a primeira coisa a ser feita é a velha e boa pesquisa, em busca dos menores preços.

Além disso, é fundamental não perder de vista o comportamento dos preços nos próximos dias. Para o consultor financeiro Flávio Neves, como forma de driblar todos esses aumentos é preciso uma dedicação maior para conseguir pequenas brechas para economizar e um acompanhamento próximo no decorrer dos dias conforme for acontecendo o consumo de cada item. "Principalmente se a família é composta por várias pessoas, onde todos precisam estar engajados no mesmo propósito", afirma.

Para o consultor financeiro André Yano, por ser um tema sensível e de grande importância em todos os lares é que a alta dos preços da alimentação tem causado tanta repercussão. Ele sugere as substituições. Quando se fala em arroz, as opções são massas e farináceos e as proteínas de origem bovina podem ser trocadas por aves e ovos. "Mas existem outras medidas que podemos fazer para esticar um pouco mais nosso orçamento, como pesquisar os mercados com preços mais atrativos, comprar nos dias promocionais e buscar ofertas pontuais", disse.

O especialista acrescenta ainda que é importante olhar para dentro de casa e procurar outras despesas que podem ser cortadas, diminuídas ou suspensas para conseguir aumentar o orçamento e assim sobrar mais dinheiro para a alimentação. O próximo passo, depois das medidas básicas, é agir para proteger o dinheiro da inflação. A indicação do consultor, neste momento de juros baixos e inflação começando a surgir, é buscar investir o dinheiro em algo que pague, pelo menos, a correção inflacionária. "Uma alternativa é investir parte do dinheiro em uma modalidade que pague IPCA ou pelo menos 2% ao ano, que é a média da inflação de hoje", afirmou. (LM)

 

Lézio Junior

Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA)

Acumulado 12 meses 2,44%

  • Janeiro  0,21%
  • Fevereiro  0,25%
  • Março  0,07%
  • Abril   -0,31%
  • Maio  -0,38%
  • Junho  0,26%
  • Julho  0,36%
  • Agosto  0,24%

Acumulado no ano 0,70%

Fonte - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)

Variação de preços ao consumidor medida pela inflação

  • Alimentação no domicílio 6,10%
  • Cebola 50,40%
  • Leite longa vida 22,99%
  • Arroz 19,25%
  • Óleo de soja 18,63%
  • Tomate 12,38%
  • Feijão carioca 12,12%
  • Farinha de trigo 12,05%
  • Farinha de mandioca 10%
  • Ovos 7,13%
  • Frango em pedaços 6,87%

Fonte - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)

Na casa da família da fotógrafa e jornalista Lívia Capeli não tem mais onde apertar o orçamento. Ela conta que para driblar o desemprego, ela e o marido, o analista de risco Alexandre Pereira, decidiram fazer pizzas para vender. Por algum tempo a alternativa foi interessante. Só que aí começaram as altas de preços dos alimentos. "Era uma opção para pagar as contas de casa. Só que a muçarela, o principal ingrediente, subiu muito, então abandonamos a ideia" contou. O quilo, que costumava custar R$ 18, chegou a ser encontrado por R$ 40 e, para as pizzas, é preciso comprar por peça.

Hoje, estão sobrevivendo de alguns freelas que ela faz como fotógrafa e também de um freela fixo, mas que não são suficientes. O filho, Enzo, de 9 anos, que estudava em escola particular, precisou ir para a pública depois que começou a pandemia. Hoje, recebem uma cesta de alimentos por mês da Prefeitura de Rio Preto. "Depois de muito tempo consegui fazer compras no supermercado. Foi um absurdo. Mudei a marca de arroz. Passei a comprar a inferior e estou pagando o mesmo valor da marca boa."

Outras escolhas foram diminuir a quantidade de itens que vão para a despensa. Se antes eram dois litros de óleo, agora é um. Leite, em menor quantidade. "Não sei mais onde vamos parar. Não tenho mais onde economizar. Não tenho luxo: o único é a internet, para eu poder trabalhar e meu filho estudar", conta. (LM)

Supermercados

  • Os preços variam de item para item. É preciso ficar atento e uma saída pode ser a escolha de produtos de marcas mais baratas, pois na grande maioria dos produtos o aumento ocorreu entre as mais conhecidas

Crie cardápios alternativos

  • Pesquise os dias de promoção de alguns itens específicos no supermercado
  • Dê preferência a atacadistas, pois costumam ser muito mais em conta

Combustíveis

  • Para quem usa veículo próprio diariamente para ir ao trabalho, por exemplo, uma saída é utilizar o meio de transporte público, nem que seja apenas alguns dias da semana, ou dividir o transporte com um amigo que faz o percurso parecido com o seu, assim os dois economizam

Gás de cozinha

  • Evite utilizar o gás com refeições que demandam muito tempo de uso
  • Consuma marmitas em alguns dias da semana, pois tem casos que comprar uma marmita fica mais em conta do que comprar todos os ingredientes e fazer em casa, além de ganhar esse tempo na execução

Energia elétrica

  • Algumas formas são bem conhecidas e, embora pareçam não ser eficazes, no final do mês podem gerar uma baita economia: não deixar as luzes acesas quando não estiver no ambiente; evitar banhos demorados; não utilizar o chuveiro no modo mais quente, que é onde ocorre um consumo maior; quando for passar roupas aproveitar para passar várias peças, evitar deixar o ar-condicionado o dia inteiro ligado e evitar também ficar com a TV ligada o dia inteiro
  • Procure realizar algumas atividades fora de casa, como caminhadas e passeios em parques, assim você sai um pouco da rotina e não consome tanta energia elétrica ficando em casa a semana inteira, todos os dias

Fonte - Flávio Neves, consultor financeiro