Auxílio emergencial turbina venda de alimentos e eletro

REFLEXO POSITIVO

Auxílio emergencial turbina venda de alimentos e eletro

Impacto na economia deve começar a perder força com auxílio a R$ 300


Material de construção foi um dos setores mais influenciados neste período de pandemia e preços subiram; tijolo e cimento encareceram 16,86% e 10,67%, respectivamente
Material de construção foi um dos setores mais influenciados neste período de pandemia e preços subiram; tijolo e cimento encareceram 16,86% e 10,67%, respectivamente - Divulgação

O auxílio emergencial de R$ 600 pago pelo governo aos trabalhadores informais a partir de abril e o confinamento imposto pela pandemia mudaram os hábitos de consumo dos brasileiros e turbinaram as vendas de alimentos, eletroeletrônicos e materiais de construção. Em julho, por exemplo, apenas quatro segmentos - supermercados, móveis e eletrodomésticos, materiais de construção e farmácias - tiveram avanço no volume de vendas em relação ao período pré-confinamento e auxílio emergencial, segundo Fábio Bentes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC). Os avanços no volume de vendas desses segmentos foram de 9,7%, 17,9%,14,6% e 7,8%, respectivamente, segundo dados do IBGE.

O aumento da demanda, porém, também impactou preços de produtos que são ícones desses segmentos. No ano, até agosto, por exemplo, televisores, aparelhos de som e informática ficaram 13,53% mais caros dentro do IPCA, o índice oficial de inflação. Nesse período, o tijolo e o cimento encareceram 16,86% e 10,67%, respectivamente, e o arroz, 19,25%. No caso específico dos alimentos, a alta de preços também teve impulso da valorização do dólar e aumento das exportações.

O impacto nas vendas, no entanto, deve começar a ser reduzido agora, com a diminuição do auxílio emergencial de R$ 600 para R$ 300. Nas contas da CNC, R$ 7,4 bilhões deixarão de ser injetados na massa de rendimentos neste semestre por conta de um auxílio menor. Economistas acreditam que a disponibilidade menor de recursos deve enfraquecer as vendas de eletrodomésticos, eletrônicos e materiais de construção, com impacto menor no consumo de alimento, que é um item essencial.

"O auxílio emergencial reduzido não é bom para o comércio e deve dar um empurrão menor para economia no quarto trimestre, principalmente", diz Bentes.

O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, concorda com Bentes. Para ele, a redução do auxílio emergencial deve afetar a demanda por móveis, eletrodomésticos e materiais de construção. No entanto, ele acredita que o padrão básico de consumo de alimentos deve ser mantido por se tratar de item essencial. Bentes espera que a tendência de alta dos preços dos alimentos perca fôlego com avanço da flexibilização do confinamento e não atrapalhe tanto as vendas do setor.

"Com a renda menor, os consumidores devem ficar mais cautelosos e vão focar nos produtos essenciais", afirma Rodolpho Tobler, economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV). A preocupação, segundo ele, é a partir de janeiro de 2021, quando o auxílio acaba, sem que haja uma recuperação consistente da atividade e do mercado de trabalho. "Até lá, não vejo a atividade aquecida a ponto de as empresas fazerem contratações."

Hábito

Além do recurso extra do auxílio que levou às compras a população de menor renda, o confinamento também mudou o hábito de consumo da classes mais abastadas. Fazendo de tudo em casa, do trabalho ao lazer, as pessoas sentiram necessidade de não só de comprar mais alimentos, mas de equipar e reformar a residência. A consultoria GFK, que monitora as vendas no varejo nacional de eletroeletrônicos, mostra uma mudança da água para o vinho das vendas desses itens após o início do pagamento do auxílio emergencial. Entre os dias 23 de março e 19 de abril, as vendas de eletroeletrônicos como um todo no varejo caíram 31% em relação a igual período do ano anterior, mas cresceram 38% entre 20 de abril e 17 de agosto. Entre os destaques do período estão celular e smartphone (de -41% para 36%), batedeira (de -22% para 72% ), tanquinho (de -52% para 31%), TVs (de -32% para 25%).