Alimentos puxam inflação em agosto

PREÇOS EM ALTA

Alimentos puxam inflação em agosto

Dólar valorizado estimula exportações e reduz oferta de produtos aqui no País


Alimentação para consumo no domicílio acumula aumento de 11,39% em 12 meses, maior resultado desde novembro de 2016
Alimentação para consumo no domicílio acumula aumento de 11,39% em 12 meses, maior resultado desde novembro de 2016 - Guilherme Baffi 19/8/2020

As famílias brasileiras voltaram a gastar mais com alimentação no mês de agosto. Os alimentos e os combustíveis foram os itens que mais pressionaram a inflação oficial no País, que fechou o mês em 0,24%, segundo os dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) divulgados nesta quarta-feira, 9, pelo IBGE.

O índice desacelerou em relação a julho, quando subiu 0,36%, mas o resultado é o maior para o mês de agosto desde 2016. No ano, o indicador acumula alta de 0,70% e, em 12 meses, de 2,44%.

Após um repique no início da pandemia, provocado por uma corrida da população aos supermercados com receio de desabastecimento, o gasto com o grupo alimentação e bebidas voltou a pesar no orçamento doméstico em agosto, com uma elevação de 0,78%. Os alimentos para consumo no domicílio, aqueles comprados nos supermercados, tiveram um avanço de 1,15% no mês.

Os aumentos de preços são impulsionados agora por uma elevação nas exportações brasileiras e pela alta do dólar ante o real, mas também por uma pressão da demanda doméstica, aquecida pelo pagamento do auxílio emergencial, apontou Pedro Kislanov, gerente do Sistema Nacional de Índices de Preços do IBGE. A alimentação para consumo no domicílio acumula um aumento de 11,39% nos 12 meses encerrados em agosto, maior resultado desde novembro de 2016.

"O consumidor acaba percebendo muito mais as altas que as quedas. E sua percepção de inflação depende muito da sua cesta de consumo individual. Se você é vegetariano vai sentir menos preço das carnes", disse Kislanov.

Embora o Brasil esteja colhendo uma safra recorde de grãos em 2020, Kislanov lembra que o dólar mais valorizado estimula as exportações e reduz a oferta de produtos no mercado doméstico.

"Essa alta nos alimentícios tem a ver com vários fatores, um deles é demanda externa, principalmente chinesa. Outro é câmbio, porque com dólar alto é interessante para o produtor exportar. E o auxílio emergencial ajudou a sustentar preços de alimentos, especialmente arroz e feijão, produtos mais básicos. Aumenta demanda também por laticínios", justificou Kislanov. "O auxílio foi importante para sustentar a demanda por itens da cesta mais básica, e pode continuar sustentando nos próximos meses."

Em agosto, houve pressão dos preços do tomate (12,98%), leite longa vida (4,84%), frutas (3,37%), carnes (3,33%), óleo de soja (9,48%) e arroz (3,08%). O arroz acumula uma alta de 19,25% no ano de 2020. Já a cebola (-17,18%), alho (-14,16%), batata-inglesa (-12,40%) e feijão-carioca (-5,85%) ficaram mais baratos.

Por outro lado, num momento em que a população ainda tem saído menos de casa, por conta da pandemia, a alimentação fora do domicílio voltou a recuar: -0,11%. A refeição fora de casa ficou 0,56% mais barata. Também aliviaram o orçamento doméstico os recuos nos preços de itens de vestuário e, principalmente, das mensalidades escolares. Os descontos concedidos pelas instituições de ensino foram captados pelo IBGE apenas na inflação de agosto, mas já ajudaram a deter o IPCA em 0,22 ponto porcentual.

De olho no arroz

O Procon-SP prepara uma ação de fiscalização nos supermercados para apurar a alta nos preços dos alimentos. "O saco de cinco quilos de arroz, que custava R$ 9 a R$ 11 antes da pandemia, chegou a R$ 19, depois bateu em R$ 27 e hoje já tem gente falando em R$ 40. É preocupante", afirma Fernando Capez, diretor-executivo do Procon-SP. Ele diz que, a princípio, vai se reunir nesta quinta, 10, com a Secretaria de Agricultura, representantes de supermercados e agricultores.

"Primeiro, vamos fazer todas as tentativas para um entendimento, com a fixação de valores que não sejam abusivos e, caso não tenhamos esse entendimento, o Procon vai fazer seu papel de fiscalizar as práticas, afirma Capez.

Nesta quarta, 9, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) zerou a tarifa de importação do arroz. O governo estabeleceu uma cota de 400 mil toneladas de arroz até o fim do ano que podem entrar no País sem a taxa, tanto com casca quanto beneficiado.

Após o presidente da República, Jair Bolsonaro, pedir patriotismo e lucro "próximo de zero" aos donos de supermercados, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), ligada ao Ministério da Justiça, notificou nesta quarta-feira, 9, empresas e associações cooperativas ligadas à produção, distribuição e venda de alimentos da cesta básica para questionar a alta nos preços dos produtos. De acordo com o documento, todos terão cinco dias para responder aos questionamentos.

No texto, a Senacon justifica que, "diante do sensível aumento de preços de itens da cesta básica, em especial do arroz, a Secretaria Nacional do Consumidor decidiu notificar o setor produtivo e comercial para esclarecer as causas do aumento nos alimentos que compõem a cesta básica brasileira".

"O aumento de valores foi notado especialmente em relação ao arroz que, apesar dos positivos volumes produtivos da última safra brasileira, informados pela Conab, teve significativo incremento de preços na prateleira", diz outro trecho da notificação.

O intuito da medida, ainda de acordo com a secretaria do MJ, é, após a devida análise, buscar "coibir aumentos arbitrários".

A notificação destaca trecho do Código de Defesa do Consumidor em que considerada uma prática abusiva "elevar sem justa causa o preço de produtos ou serviços".

No prazo de cinco dias, os estabelecimentos deverão informar quais os produtos da cesta básica possuem maior variação de preço no último mês, quais são os três principais fornecedores do produto, qual o preço médio praticado pelos fornecedores nos últimos seis meses, entre outras questões. (AE)