Em seis meses, Rio Preto perde 5.682 postos de trabalho

O EMPREGO SUMIU

Em seis meses, Rio Preto perde 5.682 postos de trabalho

Pandemia do coronavírus afetou o mercado de trabalho de Rio Preto: no primeiro semestre deste ano, saldo de vagas foi negativo em 5.682; setor de serviços e comércio foram os que demitiram mais


O arquiteto Guilherme Abreu perdeu emprego, mas decidiu trabalhar por conta própria
O arquiteto Guilherme Abreu perdeu emprego, mas decidiu trabalhar por conta própria - Guilherme Baffi 28/7/2020

A pandemia de coronavírus derreteu o emprego formal em Rio Preto. No primeiro semestre deste ano, o saldo ficou negativo em 5.682 mil empregos, resultado de 23.418 admissões e 29.100 demissões. Os dados fazem parte do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério da Economia, divulgado nesta terça, 28.

Entre janeiro e junho, dos cinco setores que integram a pesquisa, dois concentram as maiores perdas: serviços (-2.425) e comércio (-2.262), os motores da economia local. "Antes da pandemia a economia de Rio Preto já vinha enfrentando uma recessão. Depois, com as restrições de funcionamento impostas a esses dois setores, muita gente do segmento, que ficou muito tempo com as lojas fechadas, não conseguiu aguentar e precisou enxugar o pessoal, sem contar que o consumo - em função da renda menor - também está menor", afirmou Orvásio Tancredi Júnior, diretor do Sindicato do Comércio Varejista de Rio Preto.

No setor de serviços, quem mais tem sofrido - pelo menos por meio da leitura do indicador do emprego - é a categoria de alojamento e alimentação. De acordo com os dados do Caged, o saldo é negativo em 1.144 vagas. Em Rio Preto, bares e restaurantes ainda não podem operar para o recebimento de pessoas, apenas para fornecimento de comida por meio de delivery ou drive thru.

Os hotéis podem funcionar na cidade, desde que sirvam as refeições nos quartos dos hotéis, mas também acabaram muito afetados, já que o turismo de negócios, com eventos, feiras e convenções ainda não voltou a acontecer na cidade.

Ainda dentro do setor de serviços, a subcategoria informação, comunicação e atividades financeiras, imobiliárias, profissionais e administrativas aparece com o encerramento de 894 vagas no semestre.

A indústria aparece na terceira colocação, acumulando a perda de 1.065 vagas no período. Construção civil fechou o semestre com saldo positivo de 56 vagas e, a agropecuária, de 14. Foram os dois únicos setores com desempenho positivo, ainda que os resultados tenham sido discretos.

Na comparação com igual período do ano passado, o resultado é ainda mais assustador, já que entre janeiro e junho de 2019, o saldo de vagas foi positivo, em 1.294 postos de trabalho, gerados justamente pelo setor de serviços (1.576).

Segundo o economista José Mauro da Silva, a atividade econômica foi atingida em cheio com o isolamento social, com o fechamento do comércio e com a interrupção de serviços, obrigando o empregador a cortar despesas e empregos por falta de movimento e queda do faturamento. "Esse setor de atividade econômica não tem capacidade para resistir um mês sem caixa, já que a receita depende do dia a dia. São empresas pequenas, mas que geram muitos empregos e não têm reservas financeiras, sendo também, única fonte de renda de muitos proprietários". As perspectivas também não são positivas. "A queda do emprego ainda vai persistir durante o ano de 2020, porque, mesmo com abertura lenta e gradual, não há clientes".

Junho

Desde que a pandemia de coronavírus começou no Brasil, em março, o indicador que mede o emprego com carteira assinada só registra resultados negativos em Rio Preto. Junho foi o quarto, com saldo negativo de 885 vagas, resultado de 2.537 admissões e 3.422 demissões. Entretanto, foi a menor perda de vagas desde o início da pandemia.

No mês passado, mais uma vez, o setor de serviços teve o pior desempenho, com saldo negativo de 692 vagas. O comércio registrou saldo negativo de 184. A indústria foi o terceiro pior setor, com a perda de 73 vagas. Os dois segmentos com saldo positivo - porém irrelevante - foram agropecuária (1) e construção (63).

Janeiro e fevereiro tiveram resultado positivo: 553 e 657, respectivamente. Os quatro meses seguintes foram negativos. Em março houve a perda de 763 vagas; em abril - o pico deste ano - a perda de 3.444; e maio, de 1,8 mil e, agora, de outras 885.

Brasil

Em junho, houve um fechamento líquido de 10.984 empregos no Brasil. Em maio, a perda havia sido de 350.303 vagas, sucedendo o fundo do poço de abril com fechamento de 918.296 postos de trabalho, e a destruição de 259.917 vagas em março.

Os dados de meses anteriores foram atualizados nesta terça pela pasta. Entre março e junho, a perda de empregos formais para a pandemia chegou a 1,539 milhão.

O resultado de junho decorre de 895.460 admissões e 906.444 demissões. O volume representa um acréscimo de 24% nas contratações e uma queda de 16% nos desligamentos em relação a maio. Ainda assim, esse foi o pior resultado para o mês desde 2016, quando o saldo líquido foi negativo em 91.032 vagas. Em junho de 2019, houve a abertura de 48.436 vagas com carteira assinada.

No acumulado do ano até junho, o saldo do Caged foi negativo em 1,198 milhão de vagas, o pior desempenho para o primeiro semestre da série histórica disponibilizada pelo ministério (2002).

Arquivo pessoal

Mais do que números, o saldo negativo do Caged representa vidas que tiveram os rumos mudados. Guilherme Abreu, 27, é arquiteto e foi dispensado em maio. Ele trabalhava em uma empresa de paisagismo. "Depois que a empresa voltou a abrir, precisou cortar gastos e decidiu dispensar duas pessoas que tinham maiores salários."

Segundo ele, no primeiro momento foi um baque, mas em meio a tantos sentimentos gerados na pandemia veio o otimismo. "Decidi fazer uma pós-graduação a distância e vi a demissão como uma oportunidade de mudar, uma chance de buscar o que quero, decidi empreender e fazer projetos por conta própria".

Rodrigo Pantoja, 43, foi demitido em janeiro, antes da pandemia, e é a mesma que tem dificultado sua reinserção no mercado de trabalho. Ele trabalhava em uma transportadora de combustíveis, que encerrou as atividades.

Está mais difícil conseguir uma vaga porque as empresas até estão contratando, mas numa velocidade menor. "As vagas estão começando a aparecer, mas antes era muito mais. Estou fazendo cadastro em empresas e enviando currículos", afirmou ele, que recebeu a última parcela do seguro-desemprego. Por sorte, o emprego da mulher foi preservado. "Mas estou na expectativa de conseguir algo logo". (LM)